Educação e Grosseria: Por que os bons são os ruins?

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O que fará do Brasil um pais desenvolvido? Será um “truque” australiano de 25 anos sem recessão? Políticos honestos? Instituições firmes e seguras de sua atuação? Talvez todas as anteriores, mas sem dúvida a mais importante, ao meu ver, é a mudança do pensamento da própria população sobre sua situação e sobre as mazelas da realidade brasileira. Em uma justificativa estreita, minha crença na importância deste fator recai sobre a relação entre causa e efeito que uma população lúcida proporciona ao sistema todo. É mediante uma boa gasolina que se limpa um motor. Da mesma forma é com a educação da população que se abastecerá com vida as veredas de nosso país. Outro ponto sobre este recorte que justifica o meu posicionamento: de nada adianta a aplicação de planos bem estruturados para moldar instituições políticas e econômicas em benefício da sociedade se apenas 8% da população brasileira é capaz de ler e interpretar textos.

Com uma população incapaz, em termos de ensino e aprendizado, será impossível mudar algo significativo. É como querer construir um castelo de areia tendo como base um outro feito de cartas. A demanda de conhecimento médio que se exige para ser desenvolvido está longe da realidade da população brasileira, e não estou falando dos supostos “ignorantes”, marcados pelo estigma cultural que parte da mídia e o preconceito sócio-econômico fomentam: os pobres, os estudantes de escola pública, os negros e as mulheres. Concluo: o primeiro e maior ignorante é a própria população branca, com diploma de ensino superior e que deu certo.

O dado sobre alfabetização apresentado ao final do primeiro parágrafo evidência o argumento: não é você que estuda Direito, nem você que fez Medicina nem o Engenheiro que está nestes 8%. Só quem consegue interpretar bem um texto está neste seleto grupo, e frise-se: compreender um texto é muito diferente de interpretá-lo. Além deste levantamento, há outros dados que apontam para a situação de fragilidade do ensino da população do Brasil, como por exemplo o resultado do PISA (2016) o resultado do IDEB (2016) e o resultado do SAEB (2015). Os dois primeiros exames apontados mostram que a Educação brasileira está estagnada e pouco evoluí em relação à expectativa nacional e aos parâmetros internacionais. Já o último serve para mostrar que, apesar da melhora dos resultados na etapa do Ensino Fundamental, poucos alunos estão na faixa de capacidade para interpretar um texto até os 14 anos, e pior, indica que há um enorme degrau para os alunos iniciarem o Ensino Médio e/ou manterem a evolução de aprendizado da fase anterior.

Os dados sobre a falência educacional servem para explicar como os supostos expoentes de inteligência cognitiva (entendida como a capacidade de manipular ideias e informações) da sociedade brasileira são incapazes de compreenderem a realidade na qual estão inseridos e incapazes também de perceberem a própria falta de conhecimento. A maior prova da falta de educação é a forma como esta parcela das pessoas se expressa em relação aos problemas que não entendem. Além de evidenciar a grave falência de pilares fundamentais para a atividade humana, como empatia e a caridade, os enunciados capturados em redes sociais provam também a falta de capacidade de interpretação textual aliada ao ódio que esta classe desenvolveu, como descrito por Marilena Chauí.

O problema apresentado aqui é sério: 92% da população brasileira emite juízos de valor sem possuir proficiência na própria língua, ou seja, muitas vezes não é capaz de entender o próprio texto que comenta. Junte neste caldeirão o ódio e os preconceitos estruturados em nosso sistema e você terá a realidade brasileira expressa em signos nas redes sociais. O resultado são comentários perturbadores que revelam como as pessoas, do alto de seus diplomas, não pensam por conta própria e seguem, como um rebanho, qualquer notícia tendenciosa divulgada sem fontes confiáveis.

O caso mais recente, e que evidencia meu argumento como sendo ao menos minimamente razoável de credibilidade, é o do garoto que teve sua testa tatuada por pessoas de bem na região do ABC Paulista. A vítima de tortura é deficiente mental e menor de idade, inclusive é tratada pelo CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que cuida de pessoas com doenças psicológicas graves, conforme relatado pela página Diário do Centro do Mundo.  Segundo os agressores, o adolescente estaria furtando uma bicicleta e, como punição, dois homens fizeram uma tatuagem em sua testa com os seguintes dizeres: Eu sou ladrão e vacilão. Ocorre que o dono real da bicicleta não relatou nenhum furto, inclusive disse ao repórter da TV Globo, Wallace Lara, que a mesma estava quebrada e não era utilizada. Ou seja, não houve sequer crime para ser punido, mas aparentemente os donos de diplomas na internet não estão ligando. Querem mais um ser humano punido, independentemente de provas ou argumentos. A falta de letramento da população não implica somente na incapacidade de interpretação, afeta sua capacidade de interligar temas e correlacionar diferentes mensagens e de se colocar no lugar do outro. O ódio, materialmente falando portanto, também é resultado do descaso com o ensino.

Um exemplo cabal está na página do Facebook do Diário do Grande ABC que gerou diversos comentários. Dentre eles o que mais me surpreendeu foi o de um ADVOGADO, que disse:

Então quer dizer que a renda da família simples girar em torno de RS1.000,00, é atenuante ou justificativa para roubar, furtar ou matar, que seja??? Crime é crime e o crime deve ser punido sem proselitismo e sem retórica populista de 5a categoria.

O garoto é deficiente mental, só de ler esta informação em qualquer matéria sobre o caso o advogado minimamente informado deveria saber que esta condição serve para modular as consequências jurídicas do crime, dependendo da gravidade da doença. A renda da família não justifica o ato, se tivéssemos certeza que de fato ocorreu, mas explica muita coisa: pessoas pobres tem menor acesso aos tratamentos necessários e a enfermidade psicológica do garoto pode piorar. Pede-se punição, mas sequer houve comprovação do crime.

O que estamos vendo é a condenação sumária por base em opiniões sem embasamento, é condenar ignorando os princípios fundantes da dogmática processual, como o devido processo legal e a presunção de inocência. Um advogado que não se preocupa com a presteza de informações e pede punições desta forma vai em sentido oposto ao da atividade advocatícia e seu múnus público, afinal acusa sem saber e pune sem ter certeza, ferindo o núcleo principiológica da própria profissão.

O autor do comentário foi nitidamente incapaz de interpretar o texto, pois no corpo da reportagem a situação é explicada e, muito provavelmente, o jovem doutor sequer leu a notícia. Voltamos ao problema da educação falha: não é normal emitir um juízo de condenação tão sério sem ter o mínimo de conhecimento sobre o caso. Por último, e mais importante, um advogado deveria saber que não se faz mais justiça com as próprias mãos. Alias, desde a queda do estado de natureza descrito por Hobbes e o surgimento do Estado por contrato social é que se justificou, em teoria, a concessão da parcela do poder punitivo ao Estado e não mais aos seus súditos.

Outros leitores completaram o post com frases de efeito e julgamento de mérito da questão, sendo que apenas um aparentemente leu a notícia. Muito se julga, pouco se sabe. em momento algum se falou em uso de drogas. Penso que junto ao ensino deve vir a coragem para reconhecer a própria falta de saber, e não me refiro a tal ato com tom de superioridade. Todos devem estar sempre alerta aos dogmas ideológicos que carregam.

Por fim, cabe-nos perguntar: a quem agrada uma situação tão caótica na educação brasileira? Uma falha tão flagrante que atinge até o ensino superior e faz com que universidade brasileira alguma figure entre as 100 melhores do mundo é, no mínimo, preocupante. Poucos chegam na faculdade sabendo ler, e poucas faculdades ensinam quando o aluno entra. E não falo só dessa competência de leitura, mas também de outras que são básicas para poder emancipar seu pensamento. A UFABC, por exemplo, foi obrigada a criar uma matéria de introdução ao básico do Cálculo pois os alunos não sabiam sequer a matéria do ensino médio quando entravam e não conseguiam cursar diretamente as matérias com conteúdo de integral e derivada, por exemplo.

Uma lógica de venda do ensino como produto e de políticas públicas minadas pelo próprio Estado, que mais parecem incentivar esta venda para a iniciativa privada, impedem que as perspectivas melhorem para os próximos anos. Enquanto isso, poderíamos fazer como na Noruega e exigir um pequeno teste sobre a leitura de um texto antes de comentá-lo, já que poucos realmente parecem se importar com a fraqueza de nosso ensino. A valiosa lição da Unesp cabe para uma nação inteira: Bixo, aprende a ler por conta própria que é melhor.

Sobre o Autor

Vítor A. Michielin
Vítor A. Michielin
Estudante de Direito que ama cultura japonesa tradicional e a cidade de São Paulo. Gosta de narrar os fatos que vê no dia-a-dia em sua cabeça ao estilo Amélie Poulain. Sempre que viaja de Franca para Santo André tem fé em encontrar sua paixão no vagão E027 da Linha Verde. Desgosta quem acha que bem material é o espelho do sucesso. Acredita no destino, na espiritualidade do ser e que tudo tem um motivo.