Sonho de uma Noite de Primavera

Foto de Carlo SchererFoto de Carlo Scherer

Olhei uma foto recente que me lembrou de fatos passados
Acho que é para isso que as fotos servem, não?
Irônico é ver que o conteúdo da foto era atual, mas mesmo assim me fez mal
Ao olhar para a foto eu senti o velho odor doce de bebidas alcoólicas com frutas e leite condensado
Deve ser uma lembrança típica entre pessoas da minha idade que iam em festas quando mais novos
Lembrei de pouca coisa na verdade. Pensando bem eu apenas consigo distinguir esse cheiro açucarado
Lembro também do cheiro do mármore da pia que eu nunca gostei muito. Essência de pedra morta
Aquele gostinho metálico que impregna a cavidade nasal quando lavamos louça me atormentou também
Deve ser porque preparamos muitos drinks naquele dia. Um dia que eu ainda era menor de idade
Lembro de encontrar garrafas jogadas pelo chão, bem ao lado do colchão na sala
Eu estava tonto. Já havia consumido umas latas de cerveja pilsen e alguns goles das caipirinha de pinga e sake
Fomos para a praia, de noite mesmo. Senti meu pé descalço, ainda sem cascos naquele tempo, tocando a areia fria
Eu tinha dezesseis anos e adorava sair com o pessoal mais velho, em geral amigos de amigos e assim vai
Eu era o mais novo da turma, estava no segundo colegial enquanto a maioria já cursava a faculdade
Alias, sempre me dei bem com pessoas mais velhas. Nunca soube explicar o porquê
Tomei mais alguns goles quando voltamos para a casa de um dos nossos amigos, lá em Peruíbe
Eu nunca mais iria ver aquelas pessoas dois anos depois destes fatos, por problemas pessoais talvez. Não sei
Saquei um cigarro mentolado, aqueles todos pretos, dei um trago e tossi forte. Pulmão jovem e sem preparo
Desisti do cigarro e enturmei com o pessoal que estava lá fora, eramos um total de oito pessoas na casa
Todos sob a égide do sereno noturno que costuma frequentar a baixada santista em meados de setembro
Descemos da lage da edicula e aumentamos o consumo de bebidas quando voltamos para dentro
Eu já estava embriagado, com dormência nas extremidades do corpo e um leve torpor
Já não conseguia prestar muita atenção nos assuntos e um breve sono despontou no horizonte
Ouvíamos Oasis, que na época tinha acabado de lançar seu último CD. Falling Down era um clássico para mim
As guitarras dos irmãos de Manchester ainda ecoavam pela pequena, porém agradável, sala de estar quando mudou
O clima mudou, e previsão meteorológica alguma podia avaliar o que aconteceria. Era o clima humano
Típicos sinais de excesso de bebida, que pareciam molestar o que restava no nosso superego
Deitei na cama e o mundo estava parado. Minha translação, porém, era intensa
Fechei os olhos e adormeci, talvez tenha sonhado. Com certeza sonhei
Lembro de coisas absurdas. Abri o olho. Ou não? …
Via cenas de traição em namoro tempestivo. Devo recorrer? Via sombras de dois corpos ao meu lado
Era como uma grande Medusa, ou melhor, ‘A Caverna de Platão’. Não arrisquei olhar diretamente.
Ouvia gemidos. Não intensos, porém audíveis com clareza para quem estava postado ao lado da cena
Eu ouvi alguns suspiros. Fiquei arrepiado de raiva, medo e curiosidade
Eu era virgem. Não poderia sonhar com algo tão real, certo? Ou poderia? Não dizem que a mente censura?
Deitado ao lado daquele casal eu seguia com a visão no sentido oposto enquanto permanecia imóvel
Via sombras amareladas refletindo no tecido opaco do sofá diante de mim, fiquei apreensivo
Ouvia o som dos corpos em movimento. A fricção do couro de pele na pele era ensurdecedor
Eu não tinha coragem de virar e não conseguia mais me movimentar de forma alguma
Minha existência limitava-se à produção de CO2, apenas. Pensamento algum ousava cruzar minha mente
Palavras surgiam revestidas em voz feminina e martelavam, fonema por fonema, meus ouvidos sensíveis
Uma leve dor de cabeça surgiu enquanto ela falava coisas que eu me negava a entender
Pude desaprender Português, como quem delira enquanto é torturado.
Deixei uma bola emaranhada de sons sem tradução dentro da cabeça, para meu próprio bem
Um calor estranho me tocou na alma. Um cheiro suado de amor forçado entrava me rasgando as narinas
Aquela moça não namora?
Ouvi o rangindo dos lençóis deglutindo parte do colchão. Estavam mudando de posição, eu supus
Fechei os olhos. Isso é possível num sonho?
Meu coração palpitava
Abri os olhos e vi a luz amarela benzendo a sombra do casal
Ela gemeu uma última vez. Não fiquei excitado desta vez, queria que acabasse logo
Fechei os olhos
Um escuro me tomou. Não um escuro qualquer, mas aquele que é o meu escuro
Acordei do sonho
Ou dormi?

Sobre o Autor

Vítor A. Michielin
Vítor A. Michielin
Estudante de Direito que ama cultura japonesa tradicional e a cidade de São Paulo. Gosta de narrar os fatos que vê no dia-a-dia em sua cabeça ao estilo Amélie Poulain. Sempre que viaja de Franca para Santo André tem fé em encontrar sua paixão no vagão E027 da Linha Verde. Desgosta quem acha que bem material é o espelho do sucesso. Acredita no destino, na espiritualidade do ser e que tudo tem um motivo.