Memória unespiana

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Quando nós deixávamos o pátio em direção aos corredores, sentíamos que a queda dos pés direitos, de um bloco de concreto ou mesmo de uma parede inteira era iminente. As quinas desgastadas caíam aos pedaços, quando não se desfaziam feito farinha no tempo. E subíamos as escadas moles. E dávamos para um corredor como aquele primeiro, ladeado por salas enormes, altas, e banheiros em cuja entrada ainda se usavam folhas de madeira. Lá dentro uma certa paz e um certo frescor, garantidos pelo mármore, recomendavam paciência com as descargas e as torneiras de água, em geral pouco funcionais. Saindo do banheiro, dobrando duas direitas, o Centro Acadêmico, com sofás velhos, cheirando a mofo, quebrados. As salas de aula, então, nem se fala. Piso de madeira velha e rachada. Cadeiras universitárias de doer a bunda. E goteiras no teto. Muitas goteiras. Em caso de chuva mais forte, acomodavam-se os alunos em uma só região da classe. Ali, os estudantes e o professor se reuniam contra as poças de água e a chuva que, invariavelmente, tomava as aulas. No começo os mais novos achavam aquilo estranho e até mesmo indecente. Mas se acostumavam, como nós nos acostumamos, e pronto.

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Sabia-se uma construção antiga, de janelas, portas, salas e salões vedados. Havia até uma capela, sempre trancada a fechadura, que jamais vi aberta. Certa vez pude ver pela fresta da porta oval vitrais antigos, contra a luz que vinha do outro lado do prédio, direto da rua. Ali um silêncio profundo de móveis amontoados abria espaço para os ruídos do passeio público. Além disso, nosso campus já fora um colégio de freiras. Sobre a arquitetura antiga, apareceriam salas feitas de biombos, portas de plástico, gabinetes de papel. Uma tristeza para os fantasmas e um labirinto para os viventes. Vez ou outro perdia-se um calouro. Às vezes, perdiam-se calouros propositadamente no labirinto de salas e ofícios. Quem não? E por vezes mesmo quem anda sozinho busca algo que só a busca mesma lhe revela.

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E nunca reclamamos, de verdade. De brincadeira sim, reclamávamos. Dizíamos impropérios. Greve, piquete, revolução. Mas nós gostávamos do nosso prédio decadente. De suas paredes descascadas, de suas árvores abandonadas, velhas, independentes de cuidado. Dos bancos fincados sobre o cimento. Da exposição à chuva, aos ventos e ao cheiro da merenda, que subia do restaurante universitário. Do velho esquema de quadros negros e gizes brancos. Sem ventiladores, sem ar condicionado, sem eletrônicos, sem celulares. Sim, ali – também – nós fomos felizes.

Sobre o Autor

Luís Gustavo
Luís Gustavo
É músico e escritor.