Nessas eleições, evitem os “Você sabe com quem está falando? ”

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O período eleitoral pode ser um momento bastante proveitoso no sentido de clarificar biografias e trazer à tona a politização das pautas públicas. Mas é também aquele tempo em que as mesmíssimas elites se dispõem a convencer o povo de que são elas o remédio para todas as suas mazelas.

Nesse quesito, as cidadezinhas de interior criaram um tipo social muito famoso: os você-sabe-com-quem-está-falando-? Sempre assim, em tom de evidente e retórico reconhecimento. Revestidos dessa personalidade, os você-sabe-com-quem-está-falando-? supõem conseguir benefícios em órgãos públicos, o suborno de algum agente público, as regalias de um atendimento especial, as excepcionalidades da legislação local ou até mesmo a extinção de dívidas contraídas em seu nome e por alguns dos seus. Afinal, você sabe com quem está falando?

Para tanto, invocam a linhagem da tradicional família, exibem algum título conquistado, demonstram a importância que tem perante a comunidade, dizem não ter tempo a perder com os contratempos “menores” da burocracia. Quando não conseguem aquilo que julgam por direito merecer, usam do prestígio que o pomposo nome lhes deu para achincalharem os que não satisfizeram suas expectativas. Serviçais, operadores, empregados domésticos, subalternos, funcionários de baixa patente – quem são eles para perder tempo com esse tipo de gente? Ocupam-se dos mandatários, apenas. Dos que decidem. O resto é resto.

A maldição dessas figuras só pode ser coisas da nossa história malcriada, que teve seu início com o pecado original da nossa colonização. Em terras brasileiras, a Casa Grande se ergueu antes mesmo do poder público. Daí a presença que as oligarquias locais imprimem em todo tipo de extrato social. O coronelismo é um dos traços indeléveis da formação sociocultural da sociedade brasileira. Ainda que historicamente localizado, os traços do mandonismo da elite agrária ainda fazem ecos nos dias atuais. São nas cidades de interior, nos mais longínquos rincões do país, que esse tipo de poder viciado ainda se perpetua na vida política e econômica dos municípios por meio dos privilégios de um nome. Lá são caricaturalmente conhecidos como “da família de beltrano”, “o fulano que é filho de sicrano”, “os donos de tal empresa”, e assim por diante.

Em termos históricos, a constituição do nosso povo está extremamente entrelaçada com o poderio dos empreendimentos privados em detrimento do poder público. A colonização portuguesa instaurou progressivamente a estrutura agrária e escravocrata que propiciou a expansão da família patriarcal, e, desde então, os ciclos econômicos da colônia criaram vínculos de subordinação à estrutura oligárquica ora vigente. O poder das oligarquias ascendeu vagarosamente para outros segmentos da sociedade colonial, tornando-se politicamente influente e determinante nas relações sociais de tal modo que acabaram por serem normalizadas na cultura brasileira.

Mesmo passados alguns séculos, levando em consideração as alterações nas dinâmicas sociais e políticas pelas quais a sociedade brasileira passou, é perceptível a influência dessas instituições na vida nacional.  A diferença é que, agora, em uma país calcado pela desigualdade social, o predomínio desse poder é absorvido pelas estruturas da administração pública. Certos costumes foram instituídos e passados culturalmente de tal forma que hoje tornam a presença das oligarquias arraigada em nossa organização societal. Isso explica, em partes, o lobby que os você-sabe-com-quem-está-falando-? têm no dia-a-dia das decisões públicas.

Tal traço vicioso do poder público, corporificado nos diversos segmentos da administração dos pequenos municípios, perpetua a lógica de que os interesses particulares estão acima do interesse público. Assim sendo, o bem comum cede espaço para as conveniências dos conchavos familiares e de compadrios estabelecidos nos bastidores do poder. Como resultado desses desvios, os que mais perdem são a imensa parcela da população que carece dos meios de reivindicação de seus próprios direitos e que acaba por não identificar facilmente nesses hábitos a prática da corrupção.

O raciocínio pode ser simples, mas nos serve de tamanha utilidade em momentos eleitorais: se tais grupos agem de maneira autoritária fora do poder, o que não fariam uma vez estabelecidos oficialmente neste? Por isso, a mensagem é clara. Caso não seja você mesmo um você-sabe-com-quem-está-falando-?, evite-os terminantemente. Nas eleições e na vida… como um todo.

 

 

Sobre o Autor

Lucas Eduardo
Lucas Eduardo
Lucas Eduardo, 24, é internacionalista de formação, nascido em Andradina, interior de São Paulo