[Poesia] Eu não quero mais partir

Foto de Cleber Quadros (flickr.com/cleberquadros)Foto de Cleber Quadros (flickr.com/cleberquadros)

Estou aqui, estou lá
Já é tarde pra contar
Fiquei calmo, fiquei chorando
Minha vida de cigano

Por que estou aqui?
Cheiro de gasolina, nem corri
Menti e nunca perdi
Sem paciência já parti

No ônibus eu vi
Prédios, cimento, editora Abril
Cheiro ruim do Tietê
A Pinheiros nem se vê

Quis você, senti sua presença
Nós como casal, sem desavença
E que o amor vença, pois precisa
Distância insegura que me poetisa

Não por tudo que os pneus correm
Nem por tudo que dentro de mim morre
Mas por quando te vejo chorar
Quando te vejo pingando sem lacrimejar

Eu estou em casa, em duas dela
Morri como nasci
Sem nenhuma sequela
Mas a parada é dela
Transborda gente, odor humano
Nunca reclamei, já disse
Me tornei um grande cigano

Cansado de te matar
Uma vez me suicidei
Tudo escuro no altar
Só pra dizer que estudei

Estudei e me formei
Poliglota de doenças
Pânico e ansiedade
Só por uma faculdade
E essa cidade
Que não tem piedade
Franca e São Paulo
Uma de maldade
Outra de saudade

Deus me perdoe
Perdão digno peço eu
Não por ser honesto ou melhor
Mas por seu manifesto penhor
De sal e água
Benta ou ingrata
Que escorre como cascata

Meu amor que tanto chora
Meu choro que tanto ama
Você levanta da cama
Eu deito no seu colo
Cheiro de frutas
Você também virou cigana
Não porque quis
Mas porque me amou
E quando viu não me achou
Eu estava no cometa
Sonhando acordado
Clichê poético
De quem sofre calado
Na estrada sozinho
Queria mesmo ser seu vizinho
Não só do coração
Mas de porta ou de colchão

Só que a vida é bela
Eu escrevo e arrepio
Refrão da juventude é te amar
Saber que posso estar
No mar ou no lar
Remar e morrer ou ler e cozinhar
Só você pra entender
Só você pra comemorar
Toda vez que eu voltar
Cheio de vida ou precisando dela
Depois de seis horas na janela
E saber que só do seu lado
Vou tudo isso encontrar

Eu quero uma dança
Pneus já esfriaram
Cadê você moça?
Meus olhos já incharam

Eu ouço sua voz
Sempre que a embreagem falha
Nunca falha, é da quarta para a quinta
Mas não quero que você sinta
Uma ponta fria com tinta
Com caneta e papel eu declaro
Logo já é pra trinta
Casa, em casa e até porta com trinca

Reparte comigo teu peito
Canta comigo no carro
Quando a gente cruza o asfalto
Grita do manche
Da cabine de comando
Que eu levanto
E vejo que não é sonho
Porque se ainda me espanto
É por ver o seu encanto
De mulher feita, isso eu garanto

Sobre o Autor

Vítor A. Michielin
Vítor A. Michielin
Estudante de Direito que ama cultura japonesa tradicional e a cidade de São Paulo. Gosta de narrar os fatos que vê no dia-a-dia em sua cabeça ao estilo Amélie Poulain. Sempre que viaja de Franca para Santo André tem fé em encontrar sua paixão no vagão E027 da Linha Verde. Desgosta quem acha que bem material é o espelho do sucesso. Acredita no destino, na espiritualidade do ser e que tudo tem um motivo.