A diplomacia sem diplomacia do golpismo

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Com o afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff, a interinidade do governo de Michel Temer se estende em definitivo, demarcando, ao que tudo indica, o fim de um ciclo de integração sul-americana e de uma política exterior ativa e altiva sem precedentes na história brasileira. Mesmo em sua fase provisória, o golpismo já deu seus primeiros acenos para o conservadorismo em termos de projeção internacional do país.

Se pararmos para refletir e chegarmos à conclusão de que é o chanceler o grande porta-voz dos interesses nacionais em ambiente exterior, responsável por personificar em si o tipo de política buscado pela estratégia da diplomacia, podemos questionar qual é a feição que se assume com José Serra ministro das Relações Exteriores.  Tomando como base as suas manifestações recentes, que em poucos meses já foi capaz de elevar o tom com os vizinhos sul-americanos e de resumir como “besta e malfeito” o documento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH-OEA) que exigia esclarecimentos acerca do processo de impeachment, podemos presumir o que está por vir nos próximos meses. Além disso, o Brasil já conseguiu inaugurar uma crise diplomática com o Uruguai: o chanceler brasileiro é acusado de tentar subornar o voto deste país na tentativa de boicotar a presidência da Venezuela no Mercosul.

Conduzindo a diplomacia sem diplomacia, escolhendo o embate pelo embate, e enfatizando um vocabulário chulo e picaresco no trato com países menos poderosos, a política exterior brasileira não tem servido à tradição da cordialidade e do alto nível negocial tão estimado no Itamaraty. Mais do que mero recurso à disposição de políticos e negociadores internacionais, a linguagem expressa um conjunto de escolhas construídas à nível da ideologia e que, se não bem articulada, expõe preconceitos, subjuga o interlocutor e não coopera para o bom entendimento entre as partes. Assim sendo, os discursos oficiais se configuram um próprio ato de política externa, a depender de seu poder de ressonância no sistema internacional. Nesse cálculo, o Brasil não tem nada a ganhar.

O chanceler, ao adotar um tom animoso com a região sul-americana, demonstra transferir o tratamento da política partidária doméstica para o nível da representação diplomática, apequenando a atuação do país e descartando o marco de distinção da história brasileira nesse âmbito.

As reações externas, claramente, não poderiam ser piores para o momento. A América do Sul está dividida e receosa quanto às recentes movimentações do Brasil. A Venezuela decidiu retirar o embaixador Alberto Catellar e congelar as relações diplomáticas, seguido do Equador, que já havia afastado seu embaixador em maio, e que agora chamou para consultas o encarregado de negócios Santiago Javier Chávez Pareja; Paraguai, Chile e Argentina, de outro modo, adotaram posturas mais modestas em respeito aos assuntos internos do Brasil.

São tempos como esse que nos fazem rememorar o caminho percorrido pelo Paraguai quando da destituição, pelo Congresso, do então presidente Fernando Lugo em 2012. O impeachment foi desencadeado em menos de 48 horas – dentre outras máculas à lisura processual -, colocando em cheque o pleno exercício do direito de defesa de Lugo. Como reflexo imediato, o Paraguai foi suspenso temporariamente da Unasul, do Mercosul, do Projeto de Cooperação da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Procoopsur) e de seus respectivos foros – como a Cúpula de Presidentes do Mercosul, a Reunião Especializada de Cooperativas (Recm) do bloco e a reunião extraordinária do Conselho de Chefes de Estado da Unasul, na qual o país exercia a presidência pro tempore.

É por isso que, ainda que a mudança seja de natureza doméstica, o impeachment possui vinculação direta quanto à garantia das prerrogativas democráticas do Estado brasileiro e sua relação com a continuidade ou descontinuidade de políticas em parceria com atores internacionais – a política exterior é prerrogativa máxima do Poder Executivo. Em relação ao Brasil, um governo oriundo de uma ruptura democrática não encontra base de sustentação interna e nem legitimidade popular para exercer sua autonomia em ambiente internacional. Aí reside a explicação para a postura confrontista e amargurada de José Serra.

 

Sobre o Autor

Lucas Eduardo
Lucas Eduardo
Lucas Eduardo, 24, é internacionalista de formação, nascido em Andradina, interior de São Paulo