Biblioteca Municipal

(flickr.com/multnomahcountylibrary)(flickr.com/multnomahcountylibrary)

Por anos e anos de minha infância e adolescência, a enorme biblioteca do centro da cidade era a principal atração para quem procurava respostas da vida. As perguntas, de tão importantes e urgentes, eram trazidas a lápis, geralmente rasuradas num pedaço de papel qualquer, e entregues timidamente às senhorinhas de trás do balcão. Boas senhoras… cujas mãos nos levavam à grata surpresa do achado. E que surpresa! Pasmo assim adulto algum é capaz de ter.

De agricultura extensiva ao estudo de acidentes geográficos; de Aristóteles e Platão a todos os pré-socráticos; de explicações sobre “carambola dá em julho” e física da calefação a de ditongos, tritongos e hiatos; de histórias das revoluções modernas à triste constatação de ditaduras e fascismos. Também a biblioteca tinha seus dias negros. Nem todo o espanto fazia o dia feliz.

Na mente de uma criança, toda epopeia fica por conta da fantasia pueril. No auge dos dez ou onze anos de vida, sabe-se lá a proporção que ocupa o imaginário e o real. O grande mistério da biblioteca estava mesmo no impossível desafio do silêncio em meio aos coleguinhas de classe e os incessantes “psiu!” irrompendo das senhorinhas do balcão. Por isso a biblioteca municipal guarda uma imagem na minha cabeça: bumbuns se aglutinando em volta da grande mesa de madeira, braços esticados para alcançar a pesada Barsa, o passar e repassar de dedos por parágrafos cheios de letrinhas, as intrigas de facções para terem acesso ao livro antes dos demais, a procura frenética que resultava em nada…

A essa altura, pra quem me acompanha, torna-se evidente que a pesquisa em si era coisa acessória: a ida à biblioteca era o evento mais marcante do pós-aula. É pena que nos dias de hoje a grande biblioteca municipal já não parece tão grande assim. Tendo passado lá para fazer uma leitura no intervalo do trabalho, percebo que ela realmente cedeu seu posto à convulsão de smartphones e suas pesquisas instantâneas. Os dois lances de escadas que dão acesso ao saguão do recinto já não causam a canseira habitual. As senhoras já não precisam dos grunhidos para obter silêncio. A quietude é a regra da vez, onde antes era balbúrdia e agitação. Praticamente despovoada, agora serve de espaço a ventiladores girantes e alguns bons desacostumados dos novíssimos tempos.

Nada poderá substituir a viagem comunitária (e solitária) que a biblioteca oferecia. Mesmo obtendo todas as respostas à velocidade de um clique, maravilhas tecnológicas não são capazes de criar os calos nos dedos que só as páginas amareladas traziam. Nem mesmo as desventuras de se perder em selvas de fascículos durante a jornada de uma enciclopédia. Muito menos a satisfação gerada pelo engajamento delicado e vagaroso da procura. Não se trata de romantizar a renite deixada pelo pó de pilhas dos velhos livros. Ou ignorar as facilidades trazidas pelos algorítimos googleanos. Mas quem foi que convenceu a gente da improvável obsolescência da biblioteca municipal?

Sobre o Autor

Lucas Eduardo
Lucas Eduardo
Lucas Eduardo, 24, é internacionalista de formação, nascido em Andradina, interior de São Paulo