Será que não há limite para o golpe baixo intelectual e político?

(Pedro Jímenez)(Pedro Jímenez)

No dia 29/06/2016, a página do portal de notícias Uol publicou uma matéria alertando para o fato de que o perfil do pedagogo Paulo Freire foi ilegalmente alterado por meio de uma rede do governo. Com a alteração, o texto sobre ele na Wikipedia passou a conter a informação obviamente inverídica de que ele foi o criador da dita “doutrinação Marxista” nas escolas brasileiras.

Como forma de explicação sobre o desvio de finalidade da rede do governo, o artigo menciona que “em nota, o Serpro, empresa de tecnologia da informação do governo federal, disse que a alteração não partiu de suas instalações, mas de um órgão público federal que não pode ter o nome divulgado por questões contratuais. O Serpro administra a rede que provê acesso à internet tanto em instalações do próprio órgão como em instituições públicas em todo o país.” A reportagem ainda explica que “os parágrafos inseridos no artigo foram retirados de um texto publicado no site do Instituto Liberal com o título “Paulo Freire e o Assassinato do Conhecimento”. O texto é assinado por um integrante da rede Estudantes Pela Liberdade e do Movimento Universidade Livre.”

Esse episódio é lamentável e é, sem dúvida, uma questão muito grave. Digo isso porque quando redes federais de um governo interino, de legitimidade duvidosa e que está longe de ser unanimidade são deliberadamente usadas para caluniar a obra sólida de um pensador sério como o Paulo Freire, os sinais sobre o que pode vir em breve em termos de cerceamento de pensamento e supressão de direitos não são nada auspiciosos. É inaceitável que uma rede federal seja usada para distorcer o pensamento de um dos poucos intelectuais realmente competentes do Brasil e que, de fato, fez alguma contribuição significativa pelo avanço da educação nesse país, sempre tão precarizada justamente por causa do grandessíssimo esforço de governadores que, por exemplo, roubam merenda de aluno e ainda saem ilesos em CPIs conduzidas por seus comparsas de partido.

Com essa alteração grosseira e canalha do verbete da Wikipedia sobre o Paulo Freire, dissemina-se uma farsa ideológica rasteira, cultivada por gente que se diz “liberal” e que parte da única premissa tosca de que as escolas brasileiras são antros de “doutrinação Marxista”. Tenham dó! Vão caçar o que fazer! Isso não é ser liberal. Um liberal de verdade, que leu bem o Stuart Mill, o Alexis de Tocqueville, o Adam Smith, entre tantos outros autores respeitáveis, jamais faria ou diria isso. Inclusive, se envergonharia desse uso rasteiro da palavra liberal. Stuart Mill se revira no caixão cada vez que um “liberal brasileiro” toma a palavra. Ser liberal, no fim das contas, não é ser tonto como essa gente. Esse episódio só mostra que se há uma coisa que não existe no Brasil é pensador liberal de verdade. Basta ler algumas das obras da extensa tradição filosófica liberal para perceber essa obviedade.

Atitudes covardes como essas também não tem nada a ver com conservadorismo político. Elas são apenas o fruto pobre do mais puro mau-caratismo. Conservadores, assim como liberais, podem ser inteligentes, sérios e ponderados. Do mesmo modo que a centro-esquerda pode ser séria, inteligente, democrática e ponderada. Negar qualquer um desses fatores é mera canalhice política que, aliás, os autores dessa ação exercitam com maestria.

O fato incontornável é que gente que se presta a esse tipo de canalhice não é nem séria e muito menos inteligente. E tampouco está preocupada com o diálogo, com a ponderação analítica, com a reflexão séria e detida para encontrar soluções eficazes e duradouras para problemas reais que afetam, sobretudo, os mais pobres.

Os patifes que fizeram isso são apenas moleques irresponsáveis, que não assumem, inclusive, o ônus das suas próprias ações. São oportunistas políticos. Se escondem atrás de um discurso pseudo-liberal para disseminar a ideologia de extrema-direita requentada que representam, embora sempre se vendam como apartidários. Que os crédulos me perdoem, mas já vivi tempo o bastante para desconfiar de gente que se diz apartidária. No Brasil de hoje, “apartidário” é o novo nome do lobo em pele de cordeiro. É só o rótulo que a direita radical encontrou para ludibriar trouxas. E tem funcionado muito bem, infelizmente.

Além disso, ideologia não é só coisa de “doutrinador Marxista”, como gostam tanto de dizer os reacionários de plantão. Aliás, se formos continuar aceitando essa tonteira de “doutrinador Marxista”, vamos ter que começar a aceitar também ideias tão imbecis e imbecilizantes quanto a de “doutrinador apartidário”, “doutrinador liberal”, “doutrinador conservador”, “doutrinador de extrema direita”, “doutrinador neo-liberal”, “doutrinador republicano”, “doutrinador democrático”, “doutrinador nacionalista” e outras sandices. Ou seja, a ideia de uma “doutrinação Marxista” (seja lá o que for isso) é tão verdadeira quanto afirmações de que o Papai Noel realmente existe, de que o coelho da Páscoa bota deliciosos ovos de chocolate e de que, no fim do arco-íris, há um grande e belo pote de ouro. Se é para inventar inimigos, como essa direita reacionária, raivosa e rasteira gosta tanto de fazer, então vamos fazer isso dos dois lados. Ou será que doutrinação nos olhos dos outros é refresco?

O único ponto de coerência dessa gente aparvalhada é que eles não leram nem os liberais em quem supostamente se apoiam e nem os marxistas que rechaçam com veemência de criança birrenta. Isso é inegável, porque o próprio discurso deles revela isso. Essa falta de leituras básicas que ostentam até com certo orgulho é o que os habilita a falarem essa imensidão de bobagens com tanta propriedade e convicção. Só patetas políticos poderiam ter tanta certeza assim das coisas e apresentar soluções tão simplistas para questões tão complexas.

Essas pessoas poderiam, antes de abrir fogo com a tagarelice que lhes é peculiar, usar um pouco de suas existências nada préstimas para ler os livros do Paulo Freire. Se lessem um só, e bem lido, eu já me daria por satisfeito. Talvez, com um pouco de boa-vontade, até aprendessem alguma coisa. Se o fizessem, não diriam bobagens como as que dizem com essa frequência medonha sobre a obra dele. E nem sobre qualquer outro pensador, liberal ou marxista, que essa gente se propõe a comentar com a afobação e o reducionismo que lhes são característicos.

De fato, a patifaria argumentativa dessa gente é igual tanto quando criticam os seus adversários quanto quando defendem seus pontos de vista que, pelo seu alto grau de generalidade, são apenas a opinião de um dois indivíduos que é reproduzida e, assim, difundida como uma verdade coletivizada.

A preguiça intelectual desse povo só não é maior que a desfaçatez que ostentam com certa empáfia. Isso porque se lessem o Paulo Freire, esses “hackers gente de bem” notariam rapidamente que se tem uma coisa que ninguém encontra nos livros desse educador é a existência de qualquer ideia de doutrinação. Aliás, poucos pensadores foram, de fato, tão avessos a doutrinações como foi o Paulo Freire. Se esses arremedos de liberal estudassem com a devida atenção o trabalho do Paulo Freire – que, aliás, escreve de modo muito claro, diga-se de passagem – saberiam muito bem que ele não era um doutrinador, e muito menos um criador de doutrinadores.

Mas, como eu disse, essas fraudes que se apresentam na forma de grupos como “Estudantes pela Liberdade”, “Movimento Universidade Livre”, “Escola Sem Partido” não estão preocupadas com qualquer tipo de reflexão política séria e profunda. De fato, é bastante curioso e sintomático que um conjunto de movimentos que se diz tão preocupado com a liberdade ignore solenemente uma das ideias mais instigantes do Paulo Freire, e que faz com que seus livros seja lidos pelo mundo todo, nas maiores universidades do mundo. Trata-se da ideia da educação como forma de libertação e emancipação do sujeito. Para mim, isso é só mais uma prova de que esses pseudo-liberais criticam o Paulo Freire sem tê-lo lido e, muito menos, entendido seus conceitos básicos. Na verdade, esse pequeno detalhe mostra que os ditos “grupos libertadores” que inundam a opinião pública de hoje são apenas arrivistas políticos que propagam uma falsa ideia de liberdade e agem por pura má-fé. A metodologia de trabalho deles é simples: se aproveitam da ignorância de pessoas realmente de boa índole e as usam descaradamente, até que não sejam mais úteis. Depois, simplesmente as descartam como bagaços sem suco. Isso já aconteceu antes, e tudo indica que acontecerá muito em breve.

É verdade que, enquanto esbravejam suas sandices em praça pública, esses liberais de araque estão rigorosamente dentro da lei. Afinal, a liberdade de expressão ainda é um direito universal e inalienável por aqui. Até quando será eu ainda não sei. Vai depender do nível de aceitação dessas maluquices que os ditos “movimentos Livres” propõem quase que diariamente. Do ponto de vista legal, o direito à liberdade de expressão faz com que até mesmo esses patriotas tresloucados possam tornar públicos seus juízos temerários. Todavia, quando usam redes oficiais de órgãos públicos federais para avacalhar com a reputação de pensadores sérios e espalhar desponderações oportunistas aos quatro ventos, a coisa é muito diferente, e o assunto se torna uma questão de interesse público.

Em países realmente sérios, com níveis toleráveis de indignação seletiva, atitudes como essa seriam criminalmente investigadas com o cuidado e a seriedade que o caso exige. Se fosse comprovado o uso indevido de redes públicas, os responsáveis seriam julgados, teriam o amplo direito de defesa e, se condenados, ao fim do processo, seriam punidos com as penas legais cabíveis. Mas acontece que, no Brasil imponderado e rútilo de hoje, essa sandice é louvada e confundida como exemplo de engajamento político. Só não chegamos ao fundo do poço porque, como diria o André Dahmer, “fundo do poço é papo de otimista. Tudo pode ficar pior”. Definitivamente eu não posso ser acusado de otimista.

Diante de situações como esse golpe baixo intelectual e político em Paulo Freire e sua obra, me convenço cada vez mais de que talvez a lata do lixo da história seja mesmo o lugar mais adequado para o Brasil “ordem e progresso”. Mas, para evitar qualquer acusação de extremismo da minha parte, deixo claro que eu jamais defenderia que o país fosse descartado assim, do nada, de modo intempestivo. Antes de agir por impulso desse jeito, penso que seria de bom tom ao menos perguntar se a lata de lixo da história não se sentiria constrangida em aceitar esse hóspede tão indecoroso. Até porque, ao contrário dessa gente “de boa vontade”, que usa redes públicas para alimentar boatos a serviço de interesses escusos, a lata de lixo da história ainda tem alguma dignidade e certa reputação a zelar.

 

http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/06/29/doutrinacao-paulo-freire-na-wikipedia-e-alterado-por-usuario-do-governo.htm

Carta aberta da viúva de Paulo Freire, pedindo esclarecimentos e retração ao governo interino: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/07/a-carta-aberta-da-viuva-de-paulo-freire-a-michel-temer.html

Até o momento da publicação desse texto, o gabinete do presidente provisório não havia se pronunciado sobre o caso.

Sobre o Autor

Fernando Aparecido Poiana
Fernando Aparecido Poiana
É doutorando em teoria e estudos literários na UNESP de São José do Rio Preto, SP. Também é guitarrista da banda Luigi e os Pirandellos. Gosta de literatura, filosofia e música. Não tem paciência com a tagarelice edificante do senso comum.