[Poesia] ConFUSO-Horário

Foto de Pabak Sarkar

Vitor Oliveira
Doze notas, meu despertador tocou
Acordei e vi o relógio: seis e quinze da manhã
Terça-feira, 7 de junho de 2011
Estou preocupado, tenho duas aulas de Química
Levanto da cama pensando em fórmulas
Mais um dia de cursinho
Me troco, pego um ônibus e fico desperto
Meu professor fala português, e eu entendo
O sol não me banha, pois a sala não tem janelas

Aleksander Andreiko
Lápis na mão e lábios cerrados
Dez e quinze de manhã em Kiev, na Ucrânia
Os exercícios da prova de Matemática estão difíceis
A sra. Yarmolenko não gostava daquela turma
Ela olhava com gosto cada cara de tensão
Seus olhos azuis estavam apertados, típico de sua etnia
Bochechas rosadas enganavam suavizavam sua cara maldosa
Aleksander jamais pensaria num brasileiro indo para a aula

Akira Otsuka
Terminou mais um dia de trabalho
Seis e quinze da tarde em Tokyo, no Japão
Guardou suas folhas na bolsa de couro preta
Cansado de negociações, não gostava dos hábitos ocidentais
Fez questão de citar o atraso dos empresário americanos
Pensou em sua esposa, provavelmente no metrô neste momento
Sentiu vontade de tirar os sapatos e deitar no sofá de sua sala
O sol nipônico iluminava o alumínio dos carros
Arrumou sua gravata enquanto andava com pressa
O Sr. Otsuka jamais pensaria num garoto ucraniano

Antje Alting
Acordou de uma festa com dor de cabeça
Saiu da cama dez e quinze da manhã, em Amsterdã , Holanda
Decidiu preparar um café enquanto ouvia música
Pensava seriamente em nunca mais beber tanto
Tocaram a campainha: era um colega de faculdade
Deixou um pacote e um beijo e foi embora
O sol chorava por entre as nuvens, com franjas loiras apertadas
Raios fortes pegavam os olhos claros de Antje de supetão
Ela jamais pensaria em um empresário japonês

Mas eu penso, sempre pensei
Em tudo isso, em todos vocês
Eu penso se essa minha realidade
É a mesma no mundo todo
Se eu posso afirmar com verdade
Ou se sou só um tolo
Como saberei se esse sol quente
É o mesmo sol que banha toda essa gente?

Como não ficar assustado
Vendo o céu do mundo todo
Um céu compartilhado
Mas não pode ser o mesmo
É obra de ficção, ou grave erudição
Fluídos inexistentes, pessoas que nunca se tocam
O mundo é exagero, mortes evocam

Eu não vivo junto deles, por isso esse poema é mentiroso
Pare de ler, tudo isso é bem tendencioso
Mas eu não quero crer
Que neste exato momento
Seis bilhões que não cabem no pensamento
Andam comigo sobre a terra
Que pecam e erram
E eu nem imagino como viveram
E eu nem me pergunto:
Por que tudo isso?

Sobre o Autor

Vítor A. Michielin
Vítor A. Michielin
Estudante de Direito que ama cultura japonesa tradicional e a cidade de São Paulo. Gosta de narrar os fatos que vê no dia-a-dia em sua cabeça ao estilo Amélie Poulain. Sempre que viaja de Franca para Santo André tem fé em encontrar sua paixão no vagão E027 da Linha Verde. Desgosta quem acha que bem material é o espelho do sucesso. Acredita no destino, na espiritualidade do ser e que tudo tem um motivo.