Amigo da onça

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Mataram a onça: acho lastimável. Que a tenham exibido, que a tenham usado, que a tenham matado. Esse “achar lastimável” resulta de uma combinação de juízo crítico, juízo moral, juízo político e sabe-se lá o que mais. A reação em nós acerca de um evento depende dos juízos, mais ou menos apurados, que mobilizamos em nós. Quanto mais imediata, intransigente e extremada a resposta… menos apurados e cuidadosos os juízos. No caso da onça, acho IGUALMENTE lastimável que a presunção de inocência – que é direito de quem a matou – seja ignorada em favor de uma reação pretensamente politizada. Por que não deixar apurar a, como os juristas se deliciam em dizer, ocorrência? Por que não deixar apurar os juízos? Um evento não está só no mundo, mas nele integrado. Não seria só caso de bom senso e boa lógica, mas de respeito a um direito que, convenientemente, o canalha habitual invoca apenas para si: o de ser inocente até que provem o contrário. A representação virtual da condenação moral imediata ao disparo contra a onça, por meio de memes, por exemplo, apenas descortina a raiva dos que se fizeram reativos; e pior, a miséria profunda da gramática de juízos que se instalou entre nós. Um bom curso de lógica faz falta, inclusive nas universidades. Depois deste textículo, quem sabe, não me negarão o título de amigo da onça.

Sobre o Autor

Luís Gustavo
Luís Gustavo
É músico e escritor.