Pensou em crise? Trabalhe!

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Ao passar por uma das praças de pedágio mais caras do país, no interior da província de São Paulo, reparei em uma situação curiosa enquanto aguardava minha vez na fila: a moça que atendia na cabine estava com muito mais pressa que o habitual. Chegando mais perto, pude entender o porquê disso: ela fazia a cobrança nos dois sentidos da pista.

Na hora de pagar a extorsão de R$ 12,60 à empresa bilionária que detém a concessão da rodovia, perguntei à atendente se aquilo era normal, se ela sempre era sujeitada a fazer isso, ou seja, trabalhar nas duas janelas da cabine cobrando de quem ia e vinha ao mesmo tempo. Ela respondeu que não, mas que ultimamente vinha fazendo aquilo para cobrir o lugar de um ou outro funcionário que precisasse faltar.

Diante de tamanho absurdo, que porém pouco importava aos demais motoristas que só queriam seguir viagem o mais rápido possível pelo tom das buzinas, disse para ela que aquilo consistia em um abuso cometido pela empresa e que ela devia se recusar a trabalhar dobrado, mesmo porque certamente ela não ia receber a mais por exercer as duas funções – ao que ela me respondeu: “Mas nessa crise, moço, não posso me recusar a fazer isso, senão sou mandada embora”.

Pois é, o discurso da crise pegou. O exército social de reserva volta à cena para deteriorar as relações de trabalho e aumentar o lucro final dos detentores dos meios de produção. A pressão constante sobre o funcionário (ou, como se diz no linguajar atual do mundo corporativo: o “colaborador”), faz com que ele pense que diversas pessoas desempregadas querem a sua vaga e que, muito pior, seus chefes também estão em perigo com a crise: por isso deve “dar o seu melhor”.

Aí estiola-se toda a proteção do trabalhador, os diretos trabalhistas duramente conquistados não se fazem valer pois o empregado agora tem a missão de garantir o capitalista: se ele não ajudar o dono da empresa a ganhar mais pode ser que coloquem outro no seu lugar ou até mesmo a empresa quebre.

Por isso, nos tempos de crise o funcionário deve ser exemplar. E ser exemplar é trabalhar dobrado, realizar funções que não são suas, aumentar conscientemente o nível da sua exploração: é a estratégia da colaboração deliberada com o aumento da mais-valia absoluta e, principalmente, relativa. Assim, o trabalhador se sujeita a um reajuste de 0% do salário, a atender em dois guichês de pedágio ao mesmo tempo, a exercer a função de três operários na esteira…

Pobre Marx, jamais imaginou que o proletário, ao ver que está de um lado muito bem definido do processo de produção e apropriação dos lucros (ao tomar consciência de classe!), iria defender o patrão.

Sobre o Autor

Júlio Bonatti
Júlio Bonatti
Júlio Bonatti já se aventurou nas economias e engenharias em variadas universidades da província de São Paulo, graduações que interrompeu por inspirações estéticas diversas e antigos conselhos oraculares. Há algum tempo obteve documentos acadêmicos versando sobre o curso de História. É grande admirador da ornitologia clássica e da culinária pós-moderna. Atualmente se dedica a estudos linguísticos e busca viver como professor.