ATÉ O FIM

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Quantas vezes Ricardo viera ao consultório, entre constrangido e esperançoso, inventando no caminho uma justificativa para o vício e, mais uma vez, consultava o doutor Joaquim. Assumira, porém, esta verdade universal: um vício não se justifica.

É preciso parar de uma vez com a Coca-Cola, deu-lhe a ordem de forma agora severa e categórica.

Enquanto seguia desolado no banco de passageiro, a mulher, Mary, dizia a Ricardo:

Viste bem? Já não te disse? O médico também, já não disse? A úlcera ainda te mata, Ricardo! É preciso parar de uma vez com a Coca-Cola!

E seguia, a cabeça recostada no vidro fechado, desolado. Os anúncios em outdoors, as placas dos bares, o caminhão de entregas, tudo parecia conspirar pela preservação de uma relação íntima e profunda, que durara toda uma vida.

De uma vez, viste bem? É preciso!

Ao chegarem em casa, a esposa, cuidadosa e preocupada, foi direto à cozinha ter com a empregada, que preparava o almoço. Era preciso jogar fora as garrafas de vidro, os retornáveis, as latas e demais quinquilharias que uniam, no laço encantado da lembrança, Ricardo e o refrigerante.

O homem, porém, lembrou-se do frigobar que, entre livros, arquivos e pastas, ocupava o escritório de sua casa. Ao abrir a porta, o líquido sagrado, o néctar dos deuses, o tesouro dos tesouros: intacta, reluzente, geladíssima, uma lata de Coca-Cola. Como que transido e designado por uma força maior, muito maior do que sua própria vontade, Ricardo delicadamente removeu a lata e sentou-se diante da mesa. Via por cima dela o retrato das crianças, da esposa e do cachorro.

Esta será a minha última Coca-Cola – disse, em tom baixo e quase profético, para si mesmo.

Enquanto movia os dedos sobre a superfície de lata, para tirar-lhe o lacre, foi tomado por um sentimento de profunda tristeza, e chorou.

Ouviu o estampido fraco e familiar da tampa da lata e começou a beber, devagar. De repente, sentiu que lhe feria a úlcera. Uma dor incomum, lancinante, nunca imaginada tomou conta de Ricardo. Subiu-lhe sangue pela boca e, desesperado, já não podia respirar. Sabendo que era a morte quem chegava, não lutou contra a dor, não se levantou, não pediu socorro. Resignado e resoluto, com uma força não pensada, apertou entre os dedos a latinha de Coca-Cola e a bebeu. Até o fim.

Sobre o Autor

Luís Gustavo
Luís Gustavo
É músico e escritor.