Mesmos personagens, outro escritor – o dilema da Millennium

Crédtio: Wen ZengCrédtio: Wen Zeng

Stieg Larsson ganhou a vida como jornalista investigativo. Já na velhice, resolveu se aventurar a escrever literatura ficcional – e não podia ter dado mais certo. A série Millennium, que conta a história do jornalista Mikael Blomkvist e da hacker e, ocasionalmente, detetive Lisbeth Salander, foi sucesso editorial no mundo inteiro, e deu origem a quatro filmes: um americano e três suecos.

Larsson tinha planos para mais livros com os mesmos protagonistas. Apesar de ser conhecida como uma trilogia, a série Millennium deveria ter sete outros volumes (imagino que seguindo a linha das grandes histórias de detetive). Entre os fãs da série, nos quais eu me incluo, pairou a dúvida acerca de alguns pontos não esclarecidos em sua totalidade pelos três primeiros volumes. O autor original, no entanto, jamais pôde concluir sua obra: morreu pouco depois de entregar os originais dos três primeiros livros na editora.

Os leitores de “Os homens que não amavam as mulheres”, “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”, no entanto, receberam a notícia de que David Lagercrantz, jornalista sueco, escreveu o quarto volume da série, baseado em um manuscrito do autor original. De nome “That which does not kill”, o livro será lançado em 35 países e deve chegar ao Brasil em outubro.

Enquanto fã da obra de Larsson, confesso que, de início, não vi a notícia com bons olhos. Temi pelo possível oportunismo que Lagercrantz pudesse carregar ao continuar a série, desconfiei de suas intenções literárias que mais me pareceram uma tentativa de enriquecer com base no sucesso do escritor falecido. Assim, em um primeiro momento, afirmei que não leria a continuação da série.

Apesar disso, observei ser um tanto taxativa a ideia de rejeitar continuações feitas por outros escritores. Há exemplos de real oportunismo e histórias mal feitas usando personagens de outros autores, mas há também grandes obras na contramão desses primeiros.

A série The wicked years, de Gregory Maguire, usa o universo e as personagens da O mágico de Oz, de L. Frank Baum. O primeiro livro da série, Wicked, deu origem ao musical homônimo. Maguire realmente teve algo a dizer com seus livros, de modo que é muito simplista classifica-lo como “oportunista” e rejeitar essa parte de seu trabalho porque foi baseada em outro autor.

Ouso dizer que o mesmo é aplicável a todo e qualquer reconto ou adaptação de história clássica. Muitas vezes, o objetivo é mesmo atrair público usando o nome das personagens conhecidas; outras, simplesmente divulgar uma obra já antiga, que possivelmente cairia no esquecimento. Há sempre aqueles, entretanto, que tem ideias a transmitir, ideias tais que só seria cabível fazê-lo através desses personagens. Sherlock, série televisiva da BBC e adaptação dos livros de Conan Doyle, é um exemplo de reconto que acrescenta ao original.

Considerando tudo isso, passei a questionar meu preconceito sobre o novo livro. Mudei de opinião, no fim das contas. Pretendo lê-lo assim que conseguir e tirar minhas próprias conclusões, ao invés de rotulá-lo como aproveitador e me privar de ler uma nova história com personagens dos quais gosto tanto. Por enquanto, sobra a torcida para que Lagercrantz tenha sido fiel ao que Larsson criou.

Sobre o Autor

Luíza de Almeida
Luíza de Almeida
É estudante de direito, ri de piadas ruins e tem problemas crônicos de timidez. Fã incorrigível de musicais. Ainda não compreendeu totalmente Kundera ou Cortázar, mas está trabalhando nisso.