Crise migratória? Para quem?

050429-N-5526M-001 (Apr. 29, 2005)
Crew members assigned to the US Navy (USN) Cyclone Class Coastal Defense Ship USS FIREBOLT (PC 10) rescue refugees from Somalia after their boat, a fishing Dowel, capsized somewhere out in the Indian Ocean (IOC).  The FIREBOLT is currently providing Maritime Security Operations (MSO) in support of Operation ENDURING FREEDOM.
U.S. Navy official photo by Photographer's Mate First Class Robert R. McRill (RELEASED)050429-N-5526M-001 (Apr. 29, 2005) Crew members assigned to the US Navy (USN) Cyclone Class Coastal Defense Ship USS FIREBOLT (PC 10) rescue refugees from Somalia after their boat, a fishing Dowel, capsized somewhere out in the Indian Ocean (IOC). The FIREBOLT is currently providing Maritime Security Operations (MSO) in support of Operation ENDURING FREEDOM. U.S. Navy official photo by Photographer's Mate First Class Robert R. McRill (RELEASED)

É interessante ver como algumas expressões ganham destaque no mundo e são repetidas ingenuamente. “Crise migratória” é uma delas. Mas as palavras são carregadas de significados escusos e nem sempre quem as ouve percebe os posicionamentos e as disputas por trás de quem as pronuncia.

Podemos dizer que as centenas de milhares de famílias saídas do Oriente Próximo e Médio, além de diversos países da África, que tomaram o palco na imprensa internacional pelas imagens chocantes de morte, de naufrágio e de condições subumanas rumo à Europa sofrem de uma crise migratória?

Por acaso os incontáveis pais Abdullahs*, que se lançam com toda a família ao Mediterrâneo, dizem: “Filhos, estamos em uma grave crise migratória e precisamos enfrentar essa jornada”?

Quando essa expressão “crise migratória” é usada, devemos ter bem claro em mente que ela revela uma posição dos alemães, dos franceses, dos austríacos e demais países que se preocupam com um contingente de mão-de-obra barata, o qual ultrapassou o limiar controlável da sua exploração econômica.

O que vemos acontecer nessa tragédia desesperada de pessoas em busca de mínimas condições de existência, fugidas das guerras que os interesses financeiros das potências ocidentais mantêm em suas terras há décadas, é o que muito bem disse Eduardo Galeano: “É a invasão dos invadidos… pessoas que querem ser tratadas como se trata o dinheiro: sem fronteiras”.

Galeano diz isso no documentário A Ordem Criminosa do Mundo**, exibido em 2008 pela TVE espanhola – e que está mais atual do que nunca para entendermos nossa história presente.

Dessa forma, “crise migratória” é um conceito que explica muito bem o compromisso das instituições mundiais com a ordem cruel do capital, onde as pessoas que não servem à economia de mercado são um grande empecilho e merecem morrer – de preferência em seus próprios países e por um rifle vendido pelos Estados Unidos.

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Notas:

* Abdullah é o nome do pai do menino sírio encontrado morto em uma praia da Turquia que ficou famoso em uma foto pela comoção hipócrita “das pessoas de bem” ao redor do mundo.

** O documentário citado pode (e vale muito a pena) ser visto pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=8yyDNBx6ChY

Sobre o Autor

Júlio Bonatti
Júlio Bonatti
Júlio Bonatti já se aventurou nas economias e engenharias em variadas universidades da província de São Paulo, graduações que interrompeu por inspirações estéticas diversas e antigos conselhos oraculares. Há algum tempo obteve documentos acadêmicos versando sobre o curso de História. É grande admirador da ornitologia clássica e da culinária pós-moderna. Atualmente se dedica a estudos linguísticos e busca viver como professor.