Coliseu Brasileiro

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Em meio a uma quente tarde me deparei assistindo uma fala de Leandro Karnal –  o qual ao meu ver tem eloquência e oratória esplêndida, assim como uma formidável didática na exposição de seu pensamento – sobre, surpreendentemente, confrontos religiosos e fundamentalismo. Assim fui embebido por devaneios, que me levaram a fazer esse texto, incatalogável, sobre uma relação de tal vídeo/texto de Karnal e atual momento político e social que vivemos. Texto que ao menos para mim que o escrevo; não é uma crônica, não é um ensaio, não é uma dissertação. Talvez seja apenas uma paráfrase do vídeo e/ou algo que alguém escreveria em seu diário e levaria ao túmulo.

A passagem que me fez refletir, foi aquela em que o professor fala sobre o conceito de bárbaro e/ou barbárie e civilização no contexto social atual. Assim como demonstrado no vídeo os bárbaros aos gregos eram aqueles que não falavam grego, para os romanos aqueles que viviam aquém dos limites de seu império, seguindo essa linha de raciocínio todos aqueles fora cultura hegemônica ou própria seriam não civilizados. Em contraponto vemos, já nos tempos modernos, que um país, como Alemanha, que produziu conhecimento formal em níveis brilhantes e foi líder nos pensamentos de vanguarda de seu tempo, protagonizou uma das maiores barbares do século XX, fundamentadas inclusive em pensamentos formais desenvolvidos com alto nível intelectual, ao exemplo da escola de Kiel.

Deste modo o autor propõe que, independentemente do nível intelectual formal (conceito o qual foi desenvolvido na modernidade), o bárbaro é aquele que pretende, com sua teoria, destruir o diferente ou aquele que contrasta com seu pensamento. Portanto os civilizados são aqueles que não só respeitam o opositor, mas veem conscientemente que a diversidades de crenças (não só em termos religiosos) é fundamental para à civilidade, que sem a ideia oposta à minha nenhuma das duas existiria. Portando a violência é própria de indivíduos bárbaros, que querem destruir o opositor e não debater dialeticamente.  Em miúdos, aquela velha explicação dicotômica infantil de que não há claridade sem escuridão, nos é útil para visualizar o discutido.

Esses, que respeitam as ideias distintas, são os mesmo que respeitam e zelam pelo direito de cada um poder se expressar. Mesmo que a ideia é oposta à minha e lhe conferido o direito de falar.  Eu mesmo oposto a suas argumentações respeito o direito à liberdade que tu tens de dizer. Portanto é conclusivo que a liberdade de expressão que não violenta é princípio inerente ao debate, não existe debate sem oposição, sem diversidade. Mesmo que seja angustiante e infernal, lembrando Sartre, negociar com ideias dicotômicas.

Trazendo a realidade política brasileira, a qual vemos uma dicotomia entre ideias e modelos de sociedade. Poucas vezes percebemos que essa realidade poderia, pois não está sendo, muito frutífera ao desenvolvimento das instituições democráticas em nosso país. No entanto elegemos inimigos, assim nos submetemos a barbárie e queremos destruir e violentar aqueles que não compartilhando das mesmas opiniões. Deste modo, é definitivo que não estamos debatendo, estamos nos degladiando como no Coliseu.

Ao limite do absurdo pedem nas ruas que volte um regime que não existia liberdade de fala. Portanto usam do direito de expressão, conquistado pelos que perceberam a importância de que, mesmo que contrários, todos pudessem opinar. Para destruir tal luta, assim como o direito que foi consequência de sua vitória.

A democracia está muito longe da barbárie, está ao lado da liberdade de expressão e principalmente do debate heterogêneo; plural e horizontal.

[Texto do leitor Giuseppe Cammilleri Falco]

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O Leitor gosta de pizza e também de dar opinião. Não tem tempo para nada, mas tirou uns minutinhos para escrever e enviar seu texto. Toma café e sempre acha o livro muito melhor que o filme.