A comédia da panelinha, ou da imaturidade política do eleitor brasileiro

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No último dia 06/08/2015, uma parcela da população brasileira demonstrou sua indignação com o governo com o já tradicional e famigerado “panelaço”. Essa é uma estratégia que virou o principal (e eu diria o único) recurso expressivo e argumentativo de um grupo que se diz descontente com o atual governo. Antes de tudo, é preciso que duas coisas fiquem muito bem claras. Primeiro, eu não discuto o direito que cada um tem de se manifestar. Afinal, é do jogo democrático poder expressar livremente sua opinião contrária ou favorável a alguma coisa. Segundo, eu não estou aqui para defender governo algum, simplesmente porque sou cético demais para fazer isso. Feitas as devidas ressalvas, passemos à questão que me interessa diretamente e que é muito mais profunda do que o debate raso que temos visto nos últimos meses.

Há um ponto central dessas manifestações quase primitivas na sua forma de expressão que me incomoda deveras. É o fato de que esses tais “panelaços” revelam uma profunda incapacidade dessas pessoas de articular minimamente um pensamento crítico que tenha fundamento e argumentação convincentes. Veja bem, leitor querido, não seria mais inteligente, e mesmo um traço de civilidade ou sinal de verdadeira maturidade política se, ao invés de bater panela como uns aloprados, esse povo todo ouvisse atentamente os pronunciamentos e discursos, de qualquer que fosse o político? E, ao ouvi-los, anotasse os pontos principais, refletisse sobre eles como pessoas inteligentes fariam, para lembrar-se do que foi dito no futuro e, nas urnas, onde a vontade do eleitor se legitima, decidir mais inteligentemente para quem iria votar? Mas não. Ao invés disso, os paneleiros preferem bancar os histéricos, tentando calar um aparelho de TV a paneladas. Isso é comportamento de gente mentalmente equilibrada? Por mais cômico que pareça, é isso que eles estão fazendo em última análise. Sério mesmo que o nível de reflexão política da turma da panela é tão precário assim? O que eles querem com essa demonstração de primitivismo intelectual? Tirar o programa desse ou daquele candidato do ar ao som de panelas e buzinas? Tenha dó! O absurdo dessa imagem chega ao nível do cômico.

Ademais, sejamos sinceros: o que um “panelaço” contra a Dilma, contra o Eduardo Cunha, ou contra qualquer político que seja consegue de fato? Além disso, o que bater panela feito um histérico(a) mostra na prática? Discernimento? Engajamento político? Senso crítico? Compromisso com a moral e a ética? Honestidade? Preocupação com os rumos do país? Capacidade de articulação de ideias? Não sei para você, leitor amigo, mas para mim isso só mostra o quanto que o Brasil enquanto nação está longe de alcançar qualquer tipo de amadurecimento político. Isso mesmo. O pensamento político e republicano do brasileiro médio é, para ser bem otimista, inócuo. Os “panelaços” me mostram isso claramente. E também me mostram que, se fizermos uma analogia com o universo infantil, os paneleiros não passam de crianças birrentas que não ganharam o doce ou o brinquedinho novo que o papai ou a mamãe prometeram. Sabe, amigo leitor, aquelas crianças insuportáveis que vez ou outra a gente encontra no supermercado ou em uma loja qualquer, e que quando ouve um não dos pais rola no chão aos prantos para tentar convencer o pai ou a mãe a mudarem de ideia? Pois bem, esse cara, quando cresce, vira o adulto que vai bater panela da sacada de um apartamento numa área nobre qualquer. Perceba, portanto, que embora o crescimento físico possa até ser visível quando a criança vira adulto, em muitos casos, a mentalidade e a teimosia infantis se mascaram sob a égide de lapsos de razão pseudo-politizada. Ou seja, a turma da panela são as crianças mimadas que ainda não chegaram à fase adulta intelectualmente. E, sinceramente, não penso que vão chegar. Mas faço questão de deixar bem claro aqui que meu comentário é pura e simplesmente técnico-descritivo, e que jamais deve ser entendido no âmbito pessoal. Também reitero que os paneleiros de ocasião são democraticamente livres para fazer o que quiserem com suas panelas, sejam elas caras ou não. Afinal, cada um bate a panela que pode.

Agora, se o brasileiro médio tivesse só um pouquinho de vergonha na cara, característica um pouco rara por essas bandas – como você e eu bem sabemos, leitor –, ele assumiria que faz parte de um povo politicamente engajado por pura ocasião. O fato é que o brasileiro médio não tem o menor interesse ou apreço pela coisa pública. Tampouco ele tem qualquer compromisso real com ela. A menos, é claro, que o dinheiro público lhe seja fonte de privilégios individuais inesgotáveis. É nesse momento que o bom negócio do qual ele ficou de fora vira a famigerada corrupção. Do contrário, ou seja, se a corrupção lhe propicia alguma vantagem, ela é só uma boa oportunidade de crescimento pessoal. Sim, leitor, nessas horas a nossa canalhice e desfaçatez são tamanhas que nem ficamos envergonhados em deliberadamente confundir direito com privilégio. Pelo contrário, somos especialistas nisso.

Penso, inclusive, que o brasileiro médio sofre do que eu chamaria, num exercício de psicologia caseira, do mal do engajamento político sazonal e seletivo. Sazonal porque ele se manifesta só em momentos de crise (sim, leitor, o plural aqui implica que já tivemos crises, e muito piores, diga-se de passagem, ao longo de nossa história). Seletivo porque o tocador de panela não pensa a política como atividade de gestão do patrimônio público que todos construímos. Na sua ânsia de fazer barulho, ele apenas pensa a política sob o estreito viés de um partidarismo rasteiro, e enxerga questões políticas sérias através das lentes embaçadas de uma opinião pública raquítica e absolutamente míope quando bem lhe convém. Trocando em miúdos, caro leitor, quando nos mandam bater panela, batemos as panelas lépidos e trêfegos. Como se não houvesse nem ontem e nem amanhã. Por outro lado, quando nos mandam ficar calados, ficamos, porque sempre aprendemos que é de bom tom obedecer às ditas autoridades.

É claro que esse processo de manipulação intelectual e ideológica é muito sutil e quase imperceptível. Por isso mesmo ele é extremamente eficiente. Tal processo ocorre no âmbito do discurso principalmente. E ninguém presta atenção nesse negócio de discurso, não e mesmo leitor? E muito menos nas inúmeras intenções duvidosas por detrás dele. O brasileiro médio é tão bem-intencionado que chega a ter dificuldade em acreditar que os seus compatriotas possam estar tentando usá-lo. Pois é. Ele acredita mesmo que está batendo panela ou buzinando como um maluco porque decidiu fazer isso por conta própria. Mal sabe ele que essa decisão já lhe foi incutida na sua cabecinha de vento muito antes dele pensar que uma panela poderia ter outros usos que não fossem os culinários. A programação neurolinguística é, quando usada para fins escusos, absolutamente eficaz e implacável.

Olha, leitor, você pode até discordar de mim. Mas uma coisa você tem que admitir que é certa: bater panela não resolve as mazelas do país e muito menos ensina qualquer pessoa a interpretar textos, sejam eles escritos ou falados. Sabe, leitor, aqueles textos relevantes de verdade, que nos fazem conhecer profundamente a nossa realidade e que ajudam a pessoa a ler o mundo mais inteligentemente? Pois bem. Bater panela não te põe em contato com esse conhecimento. Bater panela só serve mesmo para que um bando de gente ordinária e sem qualquer expressão ou relevância consiga obter alguns míseros segundos de fama nas redes sociais ou no YouTube, posar de politicamente consciente diante do clube Tramontina (ainda que só de fachada) e incomodar o cachorro do vizinho. E mais nada.

Além disso, se o brasileiro médio fosse um pouco menos dissimulado, ele consertaria nele mesmo os defeitos que condena no outro. Mas sejamos honestos novamente, leitor, isso jamais acontecerá. Culpar o outro é muito mais fácil e divertido. Ou não é? Fazer a autocrítica honesta é extremamente difícil, e pode acabar nos revelando coisas sobre nós mesmos que, em verdade, gostaríamos de esconder. Digo isso porque tenho ouvido muita gente que brada a plenos pulmões contra a corrupção, mas que reluta em abrir mão das pequenas corrupções do seu quotidiano. Você deve conhecer alguém assim também, leitor. O brasileiro pessoa de bem e pagador de impostos não consegue, por exemplo, abrir mão do “gato” para assistir TV “de graça”. Ele também acha muito complicado deixar de parar em vaga de idoso ou deficiente. Ou estou errado? A lista das pequenas corrupções desse cidadão sui generis continua: ele gosta de jogar lata de cerveja pela janela do carro (enquanto dirige embriagado!), de dirigir no acostamento, de ultrapassar pela direita, de furar a fila do banco ou do supermercado, de não recolher o INSS do funcionário, de fazer aquela manobrazinha fiscal “que ninguém vai notar” na gerência da empresa para dar aquela “engordadinha” no fechamento do balanço semestral e “agradar o chefe ou supervisor”, de fraudar o trabalho de escola e de usar artifícios corruptivos diversos para convencer o filho ou filha a fazer o dever de casa (“se você tiver um bom rendimento na escola até o fim do ano, eu te dou uma viagem à Disney”).

O fato é que só uma pessoa muito dissimulada para não admitir que o Brasil cria, diariamente, hordas de corruptos e cretinos. Qualquer sujeito que seja minimamente crítico sobre si mesmo e sobre o país onde vive percebe que o Brasil alimenta seus pequenos e grandes corruptos com o melhor do pior que o país poderia lhes oferecer: o cinismo e a desfaçatez. Canalha incorrigível que é, o brasileiro médio muitas vezes tem até orgulho das lições de malandragem que dá a todos aqueles que lhe são próximos. Afinal, ele só está ensinando às novas gerações o caminho das pedras para os corruptos de amanhã continuarem a “se dar bem na vida”. Na prática, leitor querido, a lei de Gérson é a nossa única constituição e régua moral. O resto é balela. O paradoxo que nos define é o de pregar a moralidade enquanto somos, a rigor, profundamente imorais. É o de defender o fim da corrupção quando somos, em maior ou menor grau, corruptos e cínicos.

Como se isso tudo não bastasse, o brasileiro, principalmente aquele que aderiu à classe média por “convicção ideológica”, também gosta de defender a tal da meritocracia, embora muitas vezes não tenha a mínima noção do que é mérito. E digo mais, leitor: essa gente não saberia reconhecer o mérito se ele aparece na frente deles. Isso me faz pensar que a conduta ética do brasileiro médio poderia ser resumidamente descrita como uma espécie de “meritocracia da panelinha”. Isso mesmo. Afinal, quem nunca precisou daquela indicaçãozinha de um camarada para conseguir um emprego através pura e simplesmente dos próprios méritos? A meritocracia que o brasileiro pessoa de bem e classe média tanto defende só privilegia dois tipos de pessoa: aquele que tem o “mérito” de ter as conexões com as pessoas para indicá-lo a cargos de confiança no serviço público ou na iniciativa privada, e aquele tipo de pessoa que já tem poder de influência grande o bastante para chantagear os seus subordinados diretos ou indiretos. Não preciso citar nomes aqui. O leitor que pense nos seus próprios exemplos. Eles são vastos e facilmente identificáveis.

Outro ponto importante que devemos frisar é que o Brasil é um país essencialmente constituído por uma massa amorfa e acéfala que sai raivosamente às ruas em domingos esporádicos. E o pior de tudo é que faz isso acreditando que está exercendo a sua cidadania com essa atitude. Como podem ser tão ingênuos? Essa horda de pessoas tem até uniforme, pois sai de casa vestida com camisa da CBF (uma prototípica instituição corrupta, diga-se de passagem). Aqui a turma da panela encontra os saudosos do Ernesto Geisel. E todos saem às ruas com a alegria dos incautos, munidos de seus portentosos símbolos revolucionários – seus “paus de selfie” – só porque um partido de oposição notoriamente elitista e inconformado com a sua derrota na eleição passada mandou que eles fizessem isso. Porque, no fim das contas, é esse o grande problema para o partido derrotado, e é só por isso, e não por se preocuparem com os rumos do país, que a oposição manda direta ou indiretamente que as tais das pessoas de bem participem dessa micareta política sem pé nem cabeça. E muita gente obedece como carneiros os comandos oposicionistas. Porque está no sangue desse povo sempre honesto e bem-intencionado obedecer como carneiros. Pior de tudo é que se orgulham disso. Tiram até selfies para a posteridade. Aposto que, ao sair às ruas, boa parte dessas pessoas acha mesmo que está sendo patriota. Mas eles só estão embarcando, muitos deles sem saber, numa histeria coletiva midiaticamente programada.

Diante disso, não consigo deixar de pensar que a imaturidade moral, ética, intelectual e política do brasileiro médio faz com que ele queira ser tutelado a todo custo. E não importa muito por quem. A consequência mais direta dessa ânsia em abrir mão do seu próprio livre-arbítrio é que essas pessoas acabam ficando à mercê de toda sorte de oportunista que quer tutelá-los. E posso garantir, leitor querido, que não falta gente de índole extremamente duvidosa querendo assumir esse posto. E certamente não por vias democráticas, diga-se de passagem. Afinal, ditar regras e fazer a sua vontade prevalecer sobre a do outro ou de um grupo é sempre extremamente tentador. Quem não quer ser o dono da verdade no fim das contas? Ditar o que é certo ou errado, bom ou mal? Não é isso o que faz (ou tenta fazer) um ditador, por exemplo? Pensando por esse prisma, não é difícil entender por que o mundo produziu tantos ditadores na sua longa história de guerras e disputas de poder. E esses oportunistas de agora, deputados e senadores envolvidos até o pescoço com acusações de corrupção e enriquecimento ilícito, já perceberam que, quando se trata de maturidade política e da capacidade de desconfiar das intenções alheias, o brasileiro ainda tem o senso crítico e a malícia de uma criança. Malícia, aliás, que sobra aos Cunhas e Calheiros da vida, nunca é demais lembrar. Sim, leitor, é isso mesmo. O brasileiro médio ainda não largou as fraldas políticas e, honestamente, não acredito que vá fazer isso tão cedo. Pelo menos não enquanto o tilintar de uma panela de marca for a única manifestação crítica que ele for efetivamente capaz de produzir.

O mais curioso nesse cenário calamitoso, e para um cético como eu, profundamente hilário, é que, uma vez na rua, o brasileiro politicamente engajado de ocasião não sabe muito bem o que fazer por lá ou por que está especificamente protestando. Esse manifestante é o que eu carinhosamente chamo de barata-tonta política (com todo o respeito à barata, é claro). Afinal, ele foi simplesmente persuadido a ir para a rua num belo domingo de sol fazer número e barulho. E verdade seja dita, isso é o máximo que ele conseguiria fazer sem maiores constrangimentos. Se você, leitor, for um dos paneleiros que costuma ir para a rua aos domingos com sua camisa da CBF e tirar selfie em frente ao carro de som de algum aloprado berrando sandices copiosamente e a plenos pulmões, eu te convido a fazer o seguinte teste. Não vai te requerer prática tampouco habilidade. Vá ao protesto e pergunte ao seu coleguinha paneleiro chique por que é que ele está na rua vestido de verde e amarelo gritando determinadas palavras de ordem. Ele provavelmente vai dizer, com toda a segurança do mundo, que ele está lá para protestar contra o governo. Questão respondida? Não tão rápido, leitor. O segredo da análise é a persistência no exame do detalhe, o que requer paciência. Peço que você insista um pouco mais na sua investigação, portanto. Pergunte ao seu amiguinho, em seguida, contra o que, exatamente, ele está protestando. Pergunte pelos “fatos concretos”. Nesse momento, você descobrirá que a resposta à sua indagação não é tão simples como a pergunta parece sugerir. Aposto que a esmagadora maioria dos seus coleguinhas ficará em silêncio nesse momento. Ou então, para seu embaraço e minha diversão, soltará uma daquelas pérolas do tipo “corrupção é crime, mas sonegação não” (você acredita, leitor, que essa era uma das faixas que uma senhora de meia-idade segurava orgulhosamente no último protesto?!). Diante de uma resposta dessas, você, se tiver um restinho de discernimento, certamente irá embora para a sua casa confortável imediatamente. E provavelmente ateará fogo à sua camisa de seleção brasileira. Mas, sinceramente, não espero que você tenha esse nível de discernimento. E muito menos vergonha na cara. Afinal, se você ouviu isso da boca de um manifestante, é porque também era um deles. Daí não há nada que eu possa fazer senão me compadecer da criancice tardia. Estaria eu subestimando o manifestante e você mesmo, leitor? Acho que a pergunta mais adequada seria não estaria você, leitor, superestimando o nosso paneleiro gourmet e a si mesmo?

O brasileiro politicamente engajado de fim de semana é sem dúvida um espécime à parte. De fato, chega mesmo a ser um objeto fabuloso para um estudo de caso no campo da ciência política e do comportamento social. Eu iria mais longe até, e diria que ele é a metonímia do nosso engajamento político enquanto nação. E eu explico o meu argumento. O cidadão brasileiro vai às ruas, em pleno regime democrático que demorou anos para ser reconquistado, e que nos garante a plena liberdade de expressão até mesmo para falar todo tipo de bobagem, para pedir a volta da ditadura ou então uma intervenção militar, o que na prática é incorrer no mesmo equívoco. Ou seja, esse sujeito sai às ruas para, no limite, protestar contra o seu próprio direito de protestar! Porque, leitor, pedir intervenção ou ditadura militar é isso na prática: é pedir para apanhar ou morrer por ter ideias próprias e contrárias ao regime. Tem cabimento isso?! Se fôssemos um país de mentalidade e pensamento político minimamente desenvolvidos certamente não teria. Na verdade, qualquer um que sugerisse uma ideia dessas numa nação politicamente madura seria rapidamente tratado como lunático e, em muitos casos, internado ou interditado judicialmente. Mas aqui essas sandices são sancionadas pelo senso comum. Sim, o brasileiro médio adora pensar pelo paradigma do senso comum, esse limbo onde a ignorância encontra a desinformação e a preguiça de pensar criticamente.

Mas o melhor são os inimigos que o brasileiro médio, em momentos de loucura quixotescos, gosta de criar para justificar sua ira e suas ações injustificáveis. O brasileiro de bem, aquele tradicionalista defensor da família, da moral e dos bons costumes, gosta de bradar contra uma ideia de comunismo que é tão ingênua e maniqueísta que chega a dar pena. Essa é outra daquelas ideias que foi incutida na cabeça dele antes e durante os famigerados anos de chumbo, e que serviu, inclusive, para justificar a intervenção militar tacanha que jogou o país num atraso econômico e intelectual de séculos. Mas o que é mais morbidamente divertido nisso tudo é que essa suposta “ameaça comunista” que as pessoas de bem combatem tão convictamente já deixou de existir faz décadas. E, verdade seja dita, caro leitor, jamais sequer existiu enquanto ameaça concreta no Brasil. Mas pessoas de bem estão muito acima daquela coisa tão chata e ultrapassada chamada história. História é coisa de museu, diriam muitos deles, se orgulhando de uma ignorância que qualquer pessoa em sã consciência ou combateria com muita leitura e estudo, ou pelo menos faria um esforço hercúleo para esconder a todo custo. Por essas bandas, contudo, ignorância histórica é um diferencial, e quanto menos a pessoa conhecer a história do seu país, mais chances ela tem de entrar para o clube da panelinha irada.

De fato, a esquizofrenia e histeria do brasileiro de bem, de moral ilibada e pagador de impostos, chega a fazer com que ele produza enunciados que, de tão descabidos, são, não raro, absolutamente risíveis. O mais comum é mandar para Cuba quem aponta criticamente para o quão equivocado é o pensamento ultraconservador e protofascista que pauta as ações dessas pessoas. E não importa se quem aponta o dedo para essas inconsistências ideológicas e argumentativas é o que eles chamam de comunista ou de capitalista. Para o brasileiro médio, sazonalmente politizado, basta aplicar a lógica binária ao seu interlocutor. De acordo com essa lógica, quem discorda de você está, por simples exclusão, contra você. Binarismo, aliás, que tem forte poder de sedução até para muitos dos que se dizem esclarecidos.

O passo seguinte desse raciocínio tortuoso adotado pelas pessoas de bem é que se alguém se posiciona contra o protofascismo deles, essa pessoa deve ir (ou ser enviada) para Cuba. Ora, nunca fui a Cuba, e não posso opinar sobre as condições de vida dos cubanos. Mas não imagino que o país seja o paradigma de miséria material e existencial, próximo do que seria o inferno na terra, que frequentemente habita o discurso conservador e retrógrado dos paneleiros brasileiros. Como estereótipo que é, aposto que essa visão de Cuba que eles cultivam e espalham deve ter muito mais equívocos do que acertos. O mais engraçado, contudo, é que essas pessoas não mandam aqueles que eles julgam “comunistas” para a China, por exemplo. Poxa vida, leitor! A turma da panela poderia ser ao menos um pouco mais criativa e sagaz. Se não conhecem história, poderiam compensar sua ignorância mostrando um pouco de conhecimento de geografia. Pelo menos assim poderiam variar o destino final da viagem que desejam tão fervorosamente aos seus opositores. Afinal, pelo menos em tese, e pensando a partir da noção torta de “comunismo” que esses brasileiros cultivam, tanto Cuba quanto China são países comunistas. Ou não são? Por que, então, essa fixação quase freudiana por Cuba? Seriam os charutos?

O mais importante dessa discussão toda é que, ao exibir publicamente a própria ignorância política, bem como sua miséria intelectual e existencial, essas pessoas nem percebem que estão sendo feitas de palhaço por uma oposição oportunista que acreditam piamente que os represente. Isso mesmo, leitor. Todos esses paneleiros estão sendo feitos de palhaço, de bobo, ou da figura ridícula que vocês quiserem acrescentar a essa enumeração. Trata-se de uma “comédia da panelinha” política na qual o palhaço é sempre aquele que segura a panela e bate na pobrezinha com a truculência que é própria aos seres de consciência turva. A imagem parece patética? Pois bem, leitor, ela é. Essas pessoas (não usaria a noção de indivíduo para caracterizá-las porque ela é moderna demais para um emprego tão anacrônico) alimentam um oportunismo político voraz e da pior espécie. Um oportunismo oposicionista que defende uma agenda retrógrada, conservadora, falsamente liberal, supressora de direitos e liberdades civis, e que vai se voltar contra os seus defensores populares assim que os políticos que a encabeçam tiverem a primeira oportunidade de fazê-lo. De fato, se o brasileiro não fosse uma criatura tão crédula (esse é outro dos nossos piores defeitos), ele já teria notado isso faz tempo. Mas faz parte de ser carneiro não desconfiar do óbvio. E só há de fato maturidade de pensamento quando o ceticismo se torna uma virtude cultivada a todo o custo. Não é o caso do Brasil. Pelo menos não é o caso do brasileiro médio.

Enfim, dito isso tudo, fica aqui o meu conselho para os batedores de panela e vanguardistas do atraso contumazes: ouçam mais e batam menos panela. Isso mesmo. Ouçam! Eu sei que deve ser difícil para vocês, mas façam esse esforço. Ouvindo com atenção a gente aprende muito. Posso lhes assegurar que vale muito a pena tentar. Quem sabe, com um pouco de persistência e de sorte vocês não entendem que suas panelas raivosas têm sido usadas sistematicamente, desde o começo do ano, por uma oposição oportunista que, no fim das contas, despreza cada um de vocês com a profundidade que vocês desprezam a discussão séria e a opinião alheia. A verdade é dura, mas quando embasada em uma análise minimamente coerente do padrão comportamental do grupo, ela precisa ser dita. Portanto, menos panelaço e mais argumentação, minha gente. Digo isso para o seu próprio bem. Pensem muito bem nisso. Pensem.

Sobre o Autor

Fernando Aparecido Poiana
Fernando Aparecido Poiana
É doutorando em teoria e estudos literários na UNESP de São José do Rio Preto, SP. Também é guitarrista da banda Luigi e os Pirandellos. Gosta de literatura, filosofia e música. Não tem paciência com a tagarelice edificante do senso comum.