O Sistema é incontestável

Foto de Plantronics Germany (Flickr)Foto de Plantronics Germany (Flickr)

Nesta semana tive a oportunidade de conhecer o Sistema. Recebi a cobrança mensal do telefone e constatei no extrato o registro de duas ligações que não realizei. Dois números desconhecidos, de ddds que nem sabia existir. O valor não era muito alto, mas não achei justo ter de arcar com algo que não fiz e decidi ligar no call center da empresa, a qual não mencionarei o nome, é Claro, pelos perigos dessas denúncias hoje em dia aqui na interNet.

Depois de meia hora na linha ouvindo as novas promoções (não tem mais musiquinha de espera, agora é só propaganda) percebi uma voz do outro lado, e era uma pessoa de verdade.

– Boa tarde, senhor, em que posso ajudar?

– Então, na minha última conta de telefone vi que têm duas ligações que foram cobradas de forma errada, pois não as realizei. Como a fatura está em débito automático, gostaria de ter o valor estornado assim que registrasse o pagamento.

– Só um minuto que vou estar verificando para o senhor. (3 minutos depois) Bom, não há irregularidades constatadas. Foi mesmo o senhor que efetuou as ligações.

– Mas como assim? Eu tenho certeza de que não fiz, deve ter acontecido algum problema no registro dessas ligações, alguma falha na identificação, troca de números, sei lá.

– Talvez o senhor não se lembre de ter ligado.

– A senhora está dizendo que o errado sou eu, que faço as coisas e me esqueço? Além do mais, na data e horário das ligações eu estava trabalhando.

– Pode ter sido outra pessoa que fez, senhor.

– Como? Eu moro sozinho. Entrou um ladrão na minha casa, ignorou todos os objetos e foi direto ao telefone só para ligar para esses números?

– Não estou dizendo isso, mas de alguma forma o senhor mesmo fez as ligações; se constam no extrato, é porque o senhor é o responsável por elas.

– Se digo que não fui eu é porque tenho consciência de que não fiz essas ligações! Por favor, gostaria que revissem essa cobrança.

– Não podemos. O Sistema é incontestável, senhor.

Ao ouvir isso fiquei quieto por um momento. Estava diante de uma nova entidade: o Sistema. Um deus recém criado por aqueles que dominam as estruturas econômicas, nascido do discurso científico, acima do bem e do mal. Infalível, onisciente e onipotente – um deus de verdade. Uma divindade que não cobra o dízimo, posto que arranca à força o que você tem, sem que haja direito de defesa ou argumentação do livre arbítrio. O Sistema não erra; o Sistema não se contesta…

Diante disso, certamente o engano só podia ter sido meu. Fiquei mesmo em dúvida se não efetuei as ligações, por mais que estivesse trabalhando naquele horário em uma plena terça-feira. Desliguei o telefone sem me despedir do Sistema. Abri a lista telefônica e procurei o número de uma drogaria mais próxima. Disquei. “Olá, vocês têm remédio para a memória? Qual o nome? Ginkgo biloba? Ah, sim, vou querer. Centrum também? Funciona mesmo? Ok, pode mandar um frasco de cada então”.

Sobre o Autor

Júlio Bonatti
Júlio Bonatti
Júlio Bonatti já se aventurou nas economias e engenharias em variadas universidades da província de São Paulo, graduações que interrompeu por inspirações estéticas diversas e antigos conselhos oraculares. Há algum tempo obteve documentos acadêmicos versando sobre o curso de História. É grande admirador da ornitologia clássica e da culinária pós-moderna. Atualmente se dedica a estudos linguísticos e busca viver como professor.