“Teje preso”: Jesus Cristo, um super-herói – breves notas sobre um crime de farmácia.

Foto de Jerry WorsterFoto de Jerry Worster

Desço do meu apartamento para ir à farmácia, que fica a apenas meio quarteirão de casa. Quando me aproximo, vejo em frente à porta uma pequena multidão, disposta em semi-círculo. Não sou assíduo frequentador de drogarias e embora conheça suas longas filas, nunca havia visto nada daquela dimensão. Imaginei uma liquidação relâmpago de “tarjas preta” ou uma distribuição gratuita de pílulas azuis. Aproximando-me, vejo no centro da roda um rapaz sentado, encolhido no chão, segurado com força pelo colarinho de sua camisa por um outro rapaz, não tão jovem e significativamente mais gordo. Não, o rapaz ao chão estava em perfeita saúde. Não passava mal nem havia desmaiado, até mesmo porque um procedimento daquele dificilmente se passaria por primeiros socorros. A multidão, sempre platéia fiel para qualquer espetáculo, assistia a tudo com a tradicional cara de multidão, aquela coisa estranha e indecifrável entre a emoção espontânea, a revolta contida, o silêncio frágil, a cara de rotina e a letargia de massas.

Bem, até aqui nada aparentemente justifica o título tão esdrúxulo dado a esse texto. Acalmem-se, tudo a sua hora. Há sempre uma explicação para tudo, ou quase… Seja como for, asseguro-lhes a absoluta veracidade do relato, o que, se não conduz a conclusões significativas ou reflexões relevantes, então apenas fará provar o que já tenho dito acerca do absurdo do mundo e das coisas.

Naquele momento, meu primeiro espanto foi presenciar uma cena tão incomum a apenas alguns passos da portaria do meu prédio. Ainda que frequentado por pessoas de todos os tipos, malucos de toda sorte, um circo de horrores e excentricidades, como será no centro de qualquer cidade “normal” do mundo, nunca havia visto algo daquele tipo. Não parei para ver, não distraí do meu foco nem me desviei de meu propósito. Precisava urgentemente de uma aspirina. Ademais, procuro sempre que possível, fugir de aglomerações e evitar ao máximo até mesmo as pequenas multidões. Em geral costumo seguir em sentido contrário. No caixa, a atendente, mesmo sem que eu perguntasse, tampouco quisesse saber, explica-me a cena à porta do estabelecimento. O rapaz encolhido ao chão havia tentado furtar a carteira de dentro da bolsa de uma senhora distraída… sempre uma senhora, que aliás, saía da missa e parou para comprar um remédio, talvez para a hipertensão. Ocorre que o sujeito que agora segurava o jovem flagrou o “meliante com a boca na botija” (como ainda se diz no jargão popular policial). Agarrou-o imediatamente pela camisa, derrubou-o ao chão e “cobriu-lhe de porradas” (novamente, para resgatar alguma pérolas do linguajar cotidiano). “Teje preso”, deve ter dito o homem ao menos internamente. Dar voz de prisão é um fetiche e tanto. A polícia já havia sido acionada, viria em breve para institucionalizar a situação. Certamente estaria ocupada com alguma grave ocorrência como um acidente de carro ou uma violação de trânsito.

Confesso que frente às muitas barbáries do mundo “civilizado” a que nos acostumamos a ver, aquilo pareceu até uma bronca de professora de jardim de infância… Lembro-me, por exemplo, dos assustadores casos dos meninos amarrados a postes no Rio de Janeiro ou dos muitos linchamentos públicos, feitos por homens “comuns”, que constantemente desvelam nosso grau de violência, de barbárie e de selvageria.

A constante propaganda do medo e da insegurança nos fez imergir em uma espiral de loucura e histeria generalizada. Nesse mundo onde impera a barbárie, a insegurança, o temor, nesse mundo assombrado pelo ridículo apelo público e pelo sensacionalismo midiático, constantemente martelando na consciência do homem comum a idéia de que vivemos no “país da impunidade” onde “bandidos” andariam à solta e fariam o que bem entendem, enfim, nesse país onde “impera a mais completa falta de lei e de ordem”, o cidadão parece lançado à própria sorte e pode mesmo fazer justiça com as próprias mãos. Ora, o sadismo social da civilização ocidental evoluiu a tal ponto de “civilidade” que nos permitiu criar sistemas públicos e institucionalizados, altamente elaborados, para aplicar penas, castigos e punições. Daí proibirem a justiça com as próprias mãos. Desnecessário seria ao homem comum ocupar-se da vingança. Não precisamos fazê-lo porque haveria quem o fizesse por nós, o Estado. E não creio que o tenhamos feito para conter os excessos ou abusos da justiça privada, muito pelo contrário, ninguém pune tanto e com tanto poder e profissionalismo quanto uma Justiça, um Direito e um Estado treinados para tal. Ali estava, no entanto, uma doce e frágil senhorinha, que por uma carteira e alguns cartões, acreditava-se justificada para pedir a cabeça de um cidadão. Senhorinhas também podem ser implacáveis certas vezes…

Veja, não se trata de justificar o furto ou “defender bandido”. Posso ter me formado em Direito, posso ter até adquirido uma mentalidade de advogado, mas ainda me resta algum senso de certo/errado. Aliás, falta de escrúpulos, na minha opinião, seria não perceber a nítida desproporção que há entre uma carteira e uma cabeça. Não se trata de acabar com as penas, (até mesmo porque, aquele furto certamente terá sua punição) mas sim de não ceder ao ímpeto e à histeria. Da mesma forma, é preciso reconhecer, senão o mérito, ao menos um certo altruísmo do homem ao impedir ou interromper um crime. Apenas me pergunto se haveria razão para tanta cólera. Era um espetáculo que beirava o tragicômico, uma encenação caricata e carnavalesca do que entendemos por “justiça”. Um julgamento de rua em que o réu, sem querer pintar ninguém de coitado ou forçar sentimentalismo, não tinha nenhum direito a defesa alguma diante de uma pequena multidão encolerizada e vociferante.

Nesse ponto, aliás, o mais interessante era observar que o espetáculo tinha também um toque de catarse coletiva. Os trabalhadores que passavam, saindo do trabalho a caminho do terminal de ônibus, paravam para ver. Sentiam-se indignados e vingados. Deixavam ali a raiva que foram obrigados a engolir em um dia inteiro de serviço. Vomitavam-na na forma de um xingamento, de um palavrão, traduziam-na com a fisionomia do desprezo e de um certo prazer sádico. Não importa o tamanho do furto, a propriedade é um tabu e a sua violação merece ser punida A justiça estava feita. Alguns paravam mais, outros apenas o suficiente para não perder o horário de seus ônibus lotados e sufocantes. Seguiam todos um pouco mais aliviados.

Mas ali, não havia vítimas nem culpados… se muito, éramos todos nada além de uns coitados. Telespectadores de um drama muito maior que aquela situação poderia sugerir.

No meu caso, não sentia raiva, nem indignação nem dó, mas confesso que por algum tempo olhei assustado a tudo aquilo. Por um breve momento, veio-me à cabeça lembrança de Hannah Arendt e o que escrevera acerca do totalitarismo, obras aliás, que, devo admitir, nunca li integralmente. Parece coisa de gente desocupada, ou desse “povo de humanas”, ver em um simples crime frustrado ecos de filosofia alemã… Ora, peço licença pela petulância de evocar uma filósofa tão importante nesse meu textinho barato de esquina de farmácia. Não o faço por ser chique ou da moda, a lembrança na hora foi espontânea e incontrolável, talvez pelo crescente interesse com que venho tentando estudar sua obra. Ao analisar a ascensão do nazismo e do totalitarismo na Europa do século XX observa que foi o mesmo homem comum, trabalhador e cumpridor de seus deveres que apoiou regimes bárbaros, que aceitou abusos e desmandos, que aceitaram pequenos absurdos até habituarem-se a crimes atrozes. Mesmo os maiores monstros do nazismo, a quem poderíamos atribuir a encarnação de um mal completo e absoluto, eram no fundo, homens comuns, funcionários públicos e pais de família respeitáveis, como bem observou no relato deixado em Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal. O perigo de nos acostumarmos à barbárie, à violência e ao horror ainda é um risco real e possível, ao qual continuamos expostos. Mas ainda precisamos e preferimos crer na existência de um bem e de um mal…

Foi então que olhei para o homem que segurava o ladrão com força pelo colarinho, aliás, sem que ele oferecesse nenhuma resistência. Era ele a encarnação da lei, um homem comum feito de martelo da justiça. Com seu ato de bravura ganhou seus 5 minutos de fama e alguns poucos admiradores. Embora já tivesse descarregado boa parte de sua raiva na forma de socos e chutes, ainda lhe restava o suficiente para extravasar com o cuspe. Contava orgulhoso como havia feito para evitar o furto, como havia corajosamente salvado aquela pobre senhora de um monstro impiedoso. Enquanto segurava o bandido, contava, em voz alta e orgulhosa, sua aventura, interrompendo vez ou outra o relato para dar-lhe um chute ou chamá-lo de “merdinha”, “ladrãozinho”, “vagabundo”, “meliante” ou qualquer outro desses termos elogiosos.

Nesse ponto finalmente o enigma do título começará a fazer sentido e a ideia deste texto que me veio à mente naquele momento enfim será aclarada…

Algo me chamou a atenção naquela cena, já por demais exótica… Primeiramente, observei que o homem que tentava pagar de herói tinha uma forma física pouco convincente àqueles que, como eu, cresceram vendo os musculosos super-heróis da marvel. Contudo, não obstante isso, o homem ainda por cima usava uma camiseta de Jesus Cristo…

Até então, tentava encarar aquela cena com seriedade e preocupação. Nesse ponto, tive que me segurar para conter a gargalhada. Tudo o que conseguia imaginar era aquele sujeito vestindo um maiô colorido com uma bíblia debaixo dos braços, um justiceiro de deus. Mas, como a imaginação não tem limites, fui além, imaginei o próprio Jesus Cristo super-herói, “bombado” e barbudo (o que, aliás, está bem na moda), lutando para combater o crime e para varrer a iniquidade desse mundo, um Jesus Cristo justiceiro prendendo ladrões, capturando assassinos e levando criminosos para a cadeia ou para a cruz. Talvez usasse óculos escuros e um cabelo descolado, talvez usasse uma farda e quepe ao invés de uma capa e uma máscara. Quem sabe entrasse para o BOPE, uma mistura de Jesus Cristo e Capitão Nascimento faria enorme sucesso. Sim, tudo isso era engraçado. Eu estava delirando, mas, em tempos de tamanha insanidade, acho que todos temos licença para delirar.

Claro que não deveria assumir meu sacrilégio publicamente. Foi uma brincadeirinha sem intenção de ofender a ninguém, e que, ao menos por enquanto, ainda não pode ser considerada um crime. Quando a tal cristofobia virar crime aí então que me recolham à cadeia. Até lá continuarei a pecar sem culpa e sem temor. Seja como for, independentemente de sanção, não tem sido muito prudente brincar com esses temas. Óbvio que tenho meus temores, afinal, em tempos de crescente fanatismo religioso, além de pecador, posso ser considerado um inimigo da fé, um herege, perseguido e caçado por algum fundamentalista sem senso de humor apenas por imaginar uma figura religiosa vestida de super-herói.

De repente parece que estamos mergulhando em tempos obscuros e que falar de religião voltou a ser um tema perigoso. Perigoso, mas necessário, pois essa é uma das poucas armas contra o obscurantismo que nos ronda. Talvez seja pessimismo exagerado, mas o fato é que em pleno século XXI a religião voltou a inundar esse país, uma religiosidade irracional e descontrolada. Está por toda parte, dos telejornais à internet. A começar de um lunática bancada religiosa no Congresso, liderada por uma besta desenfreada que passa seus dias planejando o fim de um nunca alcançado Estado laico. Pastores brigando com jornalistas, líderes religiosos discutindo com uma travesti “crucificada”, até mesmo uma cruzada virtual convocada para reprovar uma mera propaganda de perfumaria. Pelo visto estamos mesmo sem nada melhor para fazer ou então talvez já tenhamos resolvido todos nossos problemas a ponto de não termos outra coisa com que nos ocupar. Ainda há pouco, em uma pausa para um café (e juro que foi coincidência), vi o texto do Gregório Duvivier que um amigo compartilhou em seu facebook. Definitivamente Jesus Cristo voltou à moda, muito embora não sejamos lá grandes exemplos ou modelos de bons cristãos. Seja como for, como todo ícone da moda, seu nome sempre acaba envolvido em polêmicas… Em uma época de confusão e desesperança, sua imagem reaparece como promessa de salvação e redenção, estampada até mesmo na camiseta de um herói anônimo de esquina. O que queremos é um super-herói, mas o que precisamos de fato não é assim tão simples e rápido. Aliás, foi exatamente uma expectativa dessas que o levou à morte. Penso que será difícil encaixá-lo em um modelo de super-herói, ainda mais um desses modernos, com roupas apertadas, cheios de aparatos e bugigangas tecnológicas.

Creio que deva discordar do texto do célebre comediante. Acho que o messias não gastaria seu tempo mandando cartas a nenhum líder religioso. Ao menos, fosse eu um deus, não me ocuparia com esse pessoal. Talvez ele tenha ido embora desse mundo exatamente para nunca mais ter que voltar. Dizem que Jesus, morto pelo seu próprio povo, ressuscitou. A culpa não é dele. Em nossos dias, tudo o que conseguimos fazer é ressuscitar monstros, fantasmas, reviver cruzadas perdidas e inúteis ou uma moralidade medieval. Há alguns dias, ouvi um amigo brincando que estamos ganhando de brinde uma Idade Média que nunca tivemos. Bem, tenho muitos amigos historiadores que não aprovariam tal anacronismo. Talvez possamos falar em um Barroco Pós-Moderno, o que, se não muda o estado das coisas, ao menos dá um pouco mais de credibilidade teórica. E já que falamos em teoria, a cada dia me convenço de que o que nos falta não é amor, tampouco fé. Falta-nos mesmo interpretação de texto, como certa vez li um colunista escrever. Como o Duvivier e tantos outros têm observado, uma leitura simples e séria da vida do tal nazareno evitaria alguns transtorno e mal-entendidos que beiram a obviedade.

Fico pensando na idéia maluca e despropósita de um Jesus Cristo super-herói. Descabida mesmo. Não acho que ele servisse para agente da lei ou para carrasco da Justiça. Seu modo de fazer justiça era outro. No entanto, lá estava uma imagem piedosa do mestre na camiseta do bravo justiceiro da esquina. De fato, gostamos mesmo é das cruzes e não aceitamos quando elas são usadas contra a dita ordem em que paradoxalmente acreditamos. Daqui a pouco usarão sua imagem para estampar um nota de 50 dólares. Jesus foi morto, cruelmente executado entre ladrões, um deles, inclusive, um bom ladrão (que talvez, penso eu, se tivesse sido efetivamente um bom ladrão, eficiente, não teria sido pego). Andou entre marginais até o fim. Morreu conversando com vagabundos e “meliantes” e ainda de sobra prometeu o céu a um. Não que Jesus não goste de velhinhas que vão à missa, apenas acho que não se prestaria a agente carcerário nem a guardinha de rua.

Arrisco dizer, conhecendo um pouco o que conheço de sua vida, que mais fácil (e mais crível) seria imaginar um Jesus Cristo sendo conduzido à cadeia por desacato após tentar ensinar lições de cristandade a um soldado ou por tentar argumentar com alguma autoridade policial… são tempos complicados para se pregar qualquer mensagem de amor…

Sobre o Autor

Gabriel Frias
Gabriel Frias
Formado em Direito pela Unesp-Franca, também estudou Letras, mas prefere acreditar que foi História. Atualmente faz mestrado em Direito e dá aulas de Literatura e Língua Portuguesa. Entusiasta das letras e da história, é um grande desiludido com o mundo e o futuro da civilização, coisas de gente perdida no tempo. Porém, contorna (ou tenta) o desespero cultivando hábitos peculiares e pequenos prazeres com os quais escapa do caos e da instabilidade do mundo. De temperamento levemente dramático e comportamento um pouco anacrônico, ainda acredita no poder redentor da arte, embora seja sempre vencido em seus arroubos literários pela força irresistível da preguiça. Habita uma capsula do tempo, gosta de escutar música em vitrola e ver filmes. Coleciona itens colecionáveis e não colecionáveis, especialmente garrafas de vinho e livros, que acredita serem as melhores companhias de um homem. Mas acima de tudo, ama mesmo comer. Apesar de tudo, por vezes demonstra um espírito aventureiro quando põe o pé na estrada e a cara no mundo. Espera um dia ser capaz de escrever um romance. É péssimo com sínteses! Não consegue descrever sequer o cardápio de restaurante em menos de 500 palavras.