As velhas águas infantis

Foto de Andrés De LeónFoto de Andrés De León

Lembro-me de quando era pequeno, bem pequeno mesmo, de passar as férias no lago. Naqueles tempos não sabia que lago era, nem o nome do lago, quanto menos a formação geológica do lago. Aliás aquilo nem era um lago.

Lembro-me que era tudo muito fácil e simples. Papai tinha um rancho, dividia com os amigos, vários chalés de inúmeras cores. Achava aquilo sensacional todas as cores bonitas. Mas o que era mais legal mesmo era o barco de papai, o barco era onde realizava a minhas expectativas infantis de felicidade. Aquela máquina que rasgava a água, um brinquedo tão grande quanto os que eu ganhava no natal. Papai adorava aquilo, até vestia um chapéu de capitão, minha felicidade ia ao seu ápice quando, papai deixava eu vestir o chapéu e, apenas, segurar a direção daquele imenso brinquaedo.

Lembro-me de passar com o barco perto da prainha que havia no lago. Via que papai passava na praia com o barco devagar, parecia que queria mostrar seu brinquedo para os outros. Não entendia o porquê. Não entendia por que aquelas pessoas saíam e seus ranchos – na outra margem do rio – para ir à prainha. E principalmente, porque não tinham um barco? Papai fazia piadas da prainha, não as entendia muito bem, mas ria. Papai ria. As pessoas nadavam, como eu, no lago. Mas bem longe de nossa margem.

Lembro-me de o tempo passar, de papai vender rancho, o barco. Lembro-me de ficar triste, lembro-me, até, que esqueci a tristeza. Cresci. Aprendi o que é um lago, aprendi que aquilo não era um lago, mas uma represa. Aprendi a necessidade de fazer uma represa; aprendi que tudo aquilo que via quando menor é mais artificial do que pensava; aprendi a precisar mais a natureza, que achava chata e parada.

Agora, recordando lembro-me das piadas de papai. Hoje elas são sem graça e, até mesmo, ofensivas. Não rio mais. Hoje penso sobre aquilo que vi; sobre o barco; sobre a água hoje posso entender, minimamente, porque o barco se movia; porque a água era daquela temperatura; porque existe a represa; porque as pessoas ficavam na prainha.

Eu voltei aquele lugar. Desta vez, sem papai; sem rancho e sem barco. Voltei assim, com minha antiga alegria infantil e, estranhamente, embebido pelo sentimento de aventura. Desta vez, no lado da prainha. Ninguém me conhecia ali, poucos sabiam que outrora estava do outro lado, ninguém me cumprimentou; desrespeito; nada, eu era como todos os outros ali.

Não fui à antiga prainha para entender algo, quem sabe para confirmar. Tudo tinha um motivo. As piadas de papai; o barco; a prainha; o lado da prainha e do rancho. Tudo não passa de uma triste estratificação social repressora, que divide – aqui por meio de um rio – as pessoas. Aquela de sempre, que já velho li nos livros e aprendi com os barbados.

Voltei triste. Refleti. Pensei. Chorei. Porém relembrei de meus tempos de criança e percebi que da segunda vez as pessoas estavam mais ao fundo do rio. Mais perto do rancho

 

[Texto do leitor Giuseppe Cammilleri Falco]

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O Leitor gosta de pizza e também de dar opinião. Não tem tempo para nada, mas tirou uns minutinhos para escrever e enviar seu texto. Toma café e sempre acha o livro muito melhor que o filme.